ALMANAQUE PRIDIE KALENDAS

 DESEJA AOS SEUS VISITANTES E AMIGOS

 

 

RARIDADES "PRIDIE KALENDAS"

EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS: Este espaço que ora se institui, será uma sala de estar dos amantes da boa leitura, dos textos imperdíveis, das curiosidades, das publicações que por um motivo ou outro deixaram de existir.  Nesta primeira edição, teremos um espaço ainda desestruturado, trazendo para esta primeira página os posts diretamente, sem ainda necessitarmos do auxilio de um índice. Com o passar do tempo, a inclusão de mais material, com certeza essa aparente deficiência será sanada. Como primeira matéria, escolhida com todo carinho, serão reeditados de uma forma extremamente reduzida alguns trabalhos da inesquecível revista A Manchete. A diagramação será toda adaptada aos nossos recursos, inclusive com a total digitação, fugindo da técnica do escaneamento, para dar um colorido mais WEB. Contamos com a já tradicional confiança, apoio e incentivo de todos os nossos Amigos!

Logo estilizado da Revista Manchete

A revista Manchete surgiu na década de 50, sendo considerada a segunda maior revista brasileira de sua época. Empregando uma concepção moderna, a revista tinha como fonte de inspiração a ilustrada parisiense “Paris Match” e utilizava, como principal forma de linguagem, o fotojornalismo.A Manchete atingiu rápido sucesso e em poucas semanas chegou a ser a revista semanal de circulação nacional mais vendida do país, destituindo a renomada e, até então, hegemonica “O Cruzeiro”.  Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revista_manchete

Revista Manchete de 15/09/1976 - Capa: Atriz Gina Lollobrigida

 Para ilustrar este post, escolhemos duas reportagens da Manchete de setembro de 1976, onde o leitor poderá apreciar o esmero que os seus editores tinham com as reportagens: sempre precisas, contemporâneas, curiosas, instrutivas,  salpicadas de fotos de qualidade sem igual. A foto da atriz Gina Lollobrigida, considerada na época como: " A mulher mais bela do Mundo" , deu um que de autenticidade nas reportagens que escolhemos;

O Brás não tem mais dono (Reportagem de Domingos De Lucca Junior, Fotografias de Francisco Carvalho Henriques) e Alguns séculos (da história de Nápoles) em ritmo de Carrossel (Reportagem de Décio Vieira Ottoni).


As fotos foram digitalizadas pelo PK, o texto digitado e a diagramação de uma maneira livre. O material, parte da Coleção Revistas Manchete , foi gentilmente cedido para este trabalho por:

SEBO MOSAICO

R. Silva Bueno, 1359 - Ipiranga - Tel. (11) 29144148 - 72796663

O fantástico acervo: Coleção Revistas Manchete (Completa e conservada) é composto de 2.528 Revistas, abrangendo o período de 26/4/1952 até (última) junho de 2002 . Eventuais interessados poderão entrar em contato, ou pelo telefone acima, ou pelo e-mail [email protected]     Falar com o Sr. Antonio


A CONVERSA NA PORTA É UM HÁBITO QUE ELAS TROUXERAM DA SICÍLIA MAS JÁ NÃO É COMUM NO BRÁS

O Brás não tem mais dono

Está desaparecendo o tradicional bairro dos italianos em São Paulo

 

AS FAMOSAS PORTEIRAS DO BRÁS, MARCO DOS TEMPOS ANTIGOS, PERDERAM O SENTIDO, O VIADUTO FICA PERTO

O BRÁS É FAMOSO PELAS SUAS CRIANÇAS. "ANJOS DE CARA SUJA". ELAS ASSISTEM AOS ÚLTIMOS DIAS DE GLÓRIA DO VELHO BAIRRO.

 

Ma che! O Brás não é mais o Brás - o velhote espalma as mãos, como se quisesse envolver a rua, entreabre a boca num sorriso antigo como as rugas que lhe cortam o rosto. Seus olhos mansos e gastos perdem-se pelas calçadas, sobem e descem, vão dos prédios modernos aos velhos cortiços ainda de pé e sua voz emerge triste do silêncio:

- Ma che ... está tudo mudado, tudo.

O cidadão que nos fala chama-se Paulo Rossini. Chegou ao Brasil há 60 anos, quando os bondes de São Paulo ainda eram puxados a burro e as ruas iluminadas por lampiões a gás. Emigrou de Basilicata, deixando as praias

AS PIPAS DE VINHO JÁ NÃO SÃO VISTAS À PORTA DAS

             CANTINAS COMO ANTIGAMENTE

do Golfo de Taranto para " fazer a América".

Nesse tempo, São Paulo era um vilarejo que se preparava para se tornar cidade. O novo imigrante, vindo de Polignamo Amare, de Consenza, de Palermo, de Régio ou de Potenza, descia em Santos trauteando uma cançoneta e rumava para o Brás, cuja capital era a Rua Caetano Pinto, uma espécie de Trieste paulistana, disputada por italianos e espanhóis, que moravam nas duas metades em que ela era dividida.

OS "SCIUSCIA" DOMINAM COM SUA ALGAZARRA AS RUAS DO BRÁS . HOJE SEM POESIA

 

O Progresso Derrubou as Cantinas e Quebrou o Bandolim do Velho Beppo

O HOMEM COM O VINHO, A MULHER COM O "SPAGHETTI": CENA TÍPICA NÃO SE VÊ MAIS. POUCOS CORTIÇOS RESTAM ENTRE AS EDIFICAÇÕES MODERNAS. O BRÁS ESTÁ MUDADO ELE CHEGOU AO BRÁS HÁ 60 ANOS QUANDO SEUS PATRÍCIOS DISPUTAVAM AOS ESPANHÓIS A SUPREMACIA DAS RUAS. HOJE DIZ: "MA CHE! O BRÁS NÃO É O MESMO.
MUITOS italianos vieram. Mais de dois milhões, de 1827 a 1936, do quais metade se fixou na Capital. O Brás, então, floresceu. O espírito poético da Itália, transplantado num pedaço da cidade, formou um bairro típico, de cantinas com enormes pipas de vinho nas portas, de velhos italianos caminhando devagar pelas ruas vazias e de matronas conversadeiras, que gastavam as noites de verão, sentadas à entrada das casas, palestrando com as vizinhas.

Era um Brás romântico de noites garoentas e madrugadas boêmias alegradas pelo som dos bandolins napolitanos. Bareses, sicilianos, calabreses- de toda a Itália eles vinham, para morar na Rua do Gasômetro, na Rua do Lucas, na Rua Cruz Branca, na Avenida Rangel Pestana.

O turista encontrava no bairro um mundo novo, de italianinhas rosadas, de pernas grossas mas bem torneadas. Deslumbrava-se com as cantinas cujos menus sugeriam comidas de nomes estranhos, hoje incorporados aos vocabulário nacional, como "spaghetti" , "taglierini", "lazagna", gnochi", etc.

Se quisesse, poderia apreciar um jogo de "boccia", regado a cerveja, ou sentar-se no canto mais afastado da cantina, para saborear um quitute típico e ouvir canções da península distante.

Na noites de garoa, velhos imigrantes fumadores de cachimbo, com cachecóis de lã enrolados no pescoço e bonés enterrados até as orelhas, juntavam-se em torno de uma mesa, bebendo " chianti" . batendo papo, ou lendo os jornais editados em italiano.

As ruas do Brás, eram a própria Itália, nos anúncios luminosos, nas tabuletas das lojas, no pregão dos peixeiros que haviam sido pescadores no Mediterrâneo ou no Adriático, no sotaque cantado dos ítalo-brasileiros que formavam as primeira gerações nascidas no país.

O Brás tornou-se famoso. Dele se ocupavam os poetas, os escritores, os sociólogos. Dele saíram fortunas respeitáveis e Alcântara Machado, no seu " Brás, Bexiga e Barra Funda", saudava nomes como Vicente Rao, Freancisco Mignome, Sud Menucci, Victor Brecheret, Matarazzo e outros, cujas árvores genealógicas têm ligação com o Brás.

O bairro cresceu. Seu nome ficou conhecido e citado, na Itália, como se fosse um subúrbio de Roma ou de Milão. Era o ponto de referência para centenas de imigrantes que vinham em busca de dias melhores.

Mas a cidade cresceu desmesuradamente. O progresso chegou implacável. Novas avenidas foram rasgadas, e os cortiços foram caindo, para dar lugar a modernos edifícios de apartamentos ou a prédios comerciais e industriais. Os portugueses "emigraram" de Vila Maria, bairro a que se haviam confinado, e tomaram conta dos bares, das confeitarias, dos restaurantes, das " pizzarias" do Brás.

Surgiram as casas de pasto com balcões reluzentes e tamboretes multicolores. As lojas típicas foram dando lugar a magazines modernos. O Brás ficou cosmopolita. O comércio de móveis da Avenida Rangel Pestana ficou com os israelitas e as ruas tradicionalmente italianas foram sendo habitadas por uma babel de raças.

HOJE NÃO EXISTE MAIS

Hoje o Brás acabou. As cantinas tem portas vaivém e porteiros fardados e os barris de vinho nas entradas desapareceram. A importação foi proibida e o Brás, agora, toma vinho nacional e um pouco de "chianti " que chega de vez em quando.

Sua ruas movimentadas nem de longe lembram o Brás de há cinco anos. O comércio da Praça da Sé, da Rua Direita, a Rua 15 de Novembro, desceu pela avenida e tomou conta do Brás.

Cruzando o bairro, vê-se que pouco, muito pouco mesmo, existe do passado. A Rua Caetano Pinto, sua mais tradicional artéria, transforma-se aos poucos. Os italianos e espanhóis vivem em boa paz: sabem que um destino igual os espera: dia virá em que serão despejados. Seus últimos cortiços serão derrubados, para dar lugar a prédios novos.

Ninguém mais ouve os trinados do bandolim do velho Beppo e nem as histórias do Mazza. As estações de rádio tomaram o seu lugar, e os imigrantes de idade avançada, que abandonam os cortiços para morar em prédios de apartamento, não entendem direito por que tudo isso está acontecendo. Maldizem o progresso e ficam com a voz embargada quando falam do velho Brás. Falam pouco, fogem do assunto, fazem como Paulo Rossini, que deixou Brasilicata há 60 anos: "Ma che! O Brás não é mais o Brás". Depois, baixam os olhos, fingem que assoam o nariz e vão-se embora resmungando baixinho.

Nisso tudo nota-se a intima revolta dos velhos " donos " do bairro, uma indiferença premeditada por tudo que é novo. Seus filhos, seus netos, identificados com o mundo de hoje, não sentem o Brás. É por isso que as ruas movimentadas do Brás, para quem as conheceu antigamente, têm um aspecto tristonho, a fisionomia marcada pela transformação repentina, que lhes roubou tudo o que tinham de bonito, de bom de pitoresco.

Atualmente, o Brás é apenas um bairro a mais na cidade, sem personalidade, sem nada que o faça diferente de todos os outros. Dentro em breve, nada restará a não ser seu nome. Os bares da Rua do Gasômetro e da Rua do Lucas serão enxotados e a festa anual de São Vito, que dura uma semana, também terá de mudar de local.

O progresso que nada respeita, avança implacavelmente em direção do Brás, que hoje não é mais o bairro dos italianos. O Brás é dos portugueses, dos espanhóis, dos israelitas, dos sírios. O Brás é de todos.

Música de fundo: IlTempoSeNeVa - No Internet Explorer, para tirar o fundo musical tecle ESC

Como ilustração, uma entrevista com Gina Lollobrigida

(Para ouvir a entrevista tecle ESC)


Voltar                  Continua >>>

Free JavaScripts provided
by The JavaScript Source