ALMANAQUE "PRIDIE KALENDAS"

 
 
 
 
 
 
 
 
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Historia de uma viagem á terra do Brasil

Introdução

Jean de Lery, viajante e historiador francês, nasceu em 1534 e morreu em 1611. Consta dos anais que aos 18 anos estava em Berna, seguindo o curso de teologia e as pregações de Calvino, e teve ensejo de fornecer á nova doutrina um importante serviço. Tendo Durand de Villegaignon fundado uma colônia francesa na Bahia, chamou todos aqueles que quisessem gozar de liberdade de consciência. Assim pedia a Calvino, que fora seu condiscípulo na Universidade de Paris, que lhe enviasse alguns homens ativos e inteligentes. Este organizou logo uma pequena expedição com destino ao Brasil, e da qual fazia parte Lery. Movido pela curiosidade, desejo de se instruir e zelo religioso, resolveu ele espalhar na América a nova doutrina. As diferentes peripécias da viagem, o acolhimento de Villegaignon, os primeiros trabalhos, os obstáculos, as hostilidades abertas, todos estes dramáticos acontecimentos foram por ele narrados na obra que intitulou: Histoire dún voyage faict en la terre du Brésil (1578), onde vem a descrição do pais, dos costumes indígenas, a enumeração dos recursos locais, e uns tópicos da língua tupi. É um guia indispensável a todos que se ocuparem do estudo dessa época. Foi muitas vezes reimpressa e traduzida em vários idiomas, mas, fosse por capricho do acaso, ou por vingança calculada dos inimigos do autor, são raríssimos os exemplares que existem, atingindo os que aparecem preços elevadíssimos.

Os textos que iremos divulgar em capítulos, foram extraídos e digitados diretamente pela nossa equipe, de uma tradução ordenada literariamente por Monteiro Lobato, editada em 1926, pela Companhia Editora Nacional, já em domínio público.

Prefácio do Editor (Mantido texto original)

A obra de Jean de Lery appareceu no anno de 1578 e se não nos enganamos é a segunda que se publicou sobre o Brasil. A primeira foi a de Hans Staden. ( 1)

Num paiz de mais cultura e mais amor ás suas coisas todas estas obras iniciaes andariam de mão em mão e nas escolas; mas é o contrario que se dá entre nós e o Brasil maravilha entre outras cousas pela descuriosidade de seus filhos em conhecerem os primordios da formação racial.

Só em 1889 appareceu cá a primeira traducção de Lery, conscienciosamente feita por Tristão de Alencar Araripe.

Araripe, porem, a escreveu numa ortographia phonetica de seu uso particular, que coisa nenhuma autorisava e só contribuiu para deixar Lery ignorado dos leitores indigenas.  Alem da absurda graphia, precursora das reformas arbritrarias que a nossa Academia de Letras tentou e o governo de Portugal impoz, a divulgação da obra viu-se tambem obstada pelo literal da traducção, dessas que transpõem para outro idioma todos os defeitos de fórma original.

Ora, no tempo de Lery a arte de bem escrever não se generalisara ainda em França, nem era Lery um precursosr da ordem e da clareza. D'ahi o penoso da sua leitura. É mister muitas vezes decifra-lhe o pensamento, tão enleiado nol'o apresenta em periodos longos, inçados de transposições, repetições, logomachias, amphiguris, hyperbatos, amontoamento de conjunctivas e quanta mais ganga inutil põem os maus escriptores a envolver as idéas. Seu estylo vale por carrascal encipoado e espinhento, dos que exigem picadas a facão.

Mas que é que nos interessa hoje em Lery, o que elle conta ou a maneira por que conta? Está claro que só nos interessa o que conta; a maneira por que conta só poderá interessar a algum cacomano estudioso de cacographia comparada. D'onde concluimos que o bom criterio em traducções taes é cingirmo-nos fielmente ao pensamento do autor, vasando-o em linguagem coada por filtros modernos. Isso conserva na traducção o valor documental da obra, que é o que nos presta, e a torna de ingestão agradavel, que é o que se quer.

Aos pixosos de archaismos cacographicos, não concordantes com este criterio, fica-lhes o recurso de irem ás fontes - e damos a taes heróes o conselho de não esquecerem em casa o facão, a bussola de matto e o tubo de aspirina.

Que o nosso criterio é acertado prova a extraordinaria sahida da obra de Hans Staden, na edição feita pela Companhia Editora Nacional - e se acolhimento igual lhe fizerem ao Lery, a empreza proseguirá na série "Collecção Brasil Antigo", dando a seguir a Singularidades da França Antarctica, os Barleus e tantas obras preciosissimas, soterradas sob o Hymalaia do nosso fakiriano indifferentismo.

 Lery nasceu em Margelle-Saint-Seine, na Borgonha, no ano de 1534, falecendo em Berna em 1611.

Foi um proselyto apaixonado da religião reformada, fazendo parte do grupo que em Genebra rodeava Calvino.

Depois da sua aventura no Brasil, onde foi victima da apostasia de Villegaignon, esteve ainda em Sancerre, por occasião do cerco dessa cidade e escreveu-lhe a historia.

Saint Hilaire o appellidou o "Montaigne dos viajantes", e não errou pois é de louvar em Lery a sua fidelidade informativa e o cuidado que tinha em respeitar versões alheias. Só perde a calma (e nisto desmontanhiza-se) quando penetra em assumpto de religião. Ahi paga com rancor e odio o odio que os catholicos votavam aos neo-protestantes.

Seu livro tem um valor inestimavel para nós - um valor tamanho que não podemos comprehender como ficou até agora fechado ao publico.

Esta nova traducção foi feita com base na edição dada em 1880 por Paul Gaffarel e na tradução de Araripe.

Não reproduzimos o prefacio de Lery por acharmol-o longo em excesso e desinteressante para nós.

É uma catilinaria contra seus inimogos de França, uma "actualidade"que já passou.

Numa obra viva como a de Lery tal prefacio equivale a um galho morto. Viria engrossar o volume e encarecel-o sem proveito nenhum para os leitores.

Nota do PK ( 1) - O livro de Hans Standen, publicado sob o titulo de "O MEU CATIVEIRO ENTRE OS SELVAGENS DO BRASIL", é como se diz no prefacio, o primeiro que foi escrito sobre o nosso pais.

Staden, aventureiro alemão naufragou nas costas do Brasil, salvou-se, alcançando a capitania de São Vicente e obteve colocação na fortaleza de Bertioga, como artilheiro. Um dia, porem, caiu nas mãos dos Tupinambás e durante oito meses sofreu a maior aflição, á espera de ser devorado pelos canibais e a Vê-los devorar outros prisioneiros. Afinal, com grande habilidade, consegue impor-se como francês e salvar-se, regressando á sua pátria num navio de França.

Lá escreveu o seu imortal livro, livro de tal modo precioso como documento da época.


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