ALMANAQUE "PRIDIE KALENDAS"

 
 
 
 
 
 
 
 
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Historia de uma viagem á terra do Brasil

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CAPÍTULO XVII

CASAMENTO, POLYGAMIA E PARENTESCO DOS SELVAGENS; MODO DE TRATAR AS CREANÇAS


Acerca do casamento dos selvagens americanos cumpre-me dizer que elles somente observam dois gráos de parentesco adversos ao casamento, pois só não casam entre si os filhos com os paes e os irmãos.

A cerimonia matrimonial é muito simples: o homem que quer casar indaga da vontade da mulher, seja donzella ou viuva, e, uma vez acceito, dirige-se ao pae ou parente mais proximo, ao qual a pede. Se obtem o sim, leva comsigo a noiva como sua legitima mulher, sem lavrar qualquer contracto; se sem mais formalidades recebe um não, o pretendente desterra-se.

Notae, porém, que a polygamia é permitida e que os homens de muitas mulheres são considerados os mais valentes, convertendo-se assim o vicio em virtude. Alguns vi com oito esposas, cuja ennumeração se fazia em seu louvor. O admiravel é que havendo entre tantas uma mais amada do marido, não mostrem as outras ciumes, nem murmurem; vivem juntas em boa paz, todas occupadas no serviço domestico, fabrico de redes e cultura das roças. Ainda quando não fosse a polygamia vedada por Deus, deixo aos meus leitores a consideração se seria possivel que nossas europeias se accommodassem ao systema - ou se se accommodariam a elle os nossos homens. Melhor lhes seria irem para as galés do que permanecerem em tal fóco de rixas e ciumeiras; acontecer-lhes-ia o que aconteceu a Jacob, o qual, entretanto, só tomou duas, e irmãs, Lia e Rachel.

Como poderiam nossas mulheres viver unidas, se o simples preceito imposto por Deus de ajudar e coccorrer ao marido já as torna o demonio familiar das casas? Com isto não quero censurar as boas esposas, as quaes, embora com ser boas nada mais façam do que cumprir o seu dever, merecem tanto louvor quanto as más merecem vituperio.

Voltando ao casamento dos americanos direi que o adulterio feminino lhes causa tal horror que o homem pode, não só repudir com ignominia a esposa, como ainda matal-a.

É certo, entretanto, que antes de casal-a pode o pae prostituir a filha com qualquer varão.

Antes da nossa estada no Brasil os trugimões normandos haviam abusado de muitas raparigas sem que isso as infamasse; casavam-se depois e não mais claudicavam, sob a ameaça dos terriveis castigos.

Direi mais que os mancebos e donzellas nubeis não se entregam á devassidão, como seria de suppor com habitantes de zona calida, e prouvéra a Deus que por cá tambem não reinasse a impudicicia! Todavia, para não apresental-os melhores do que são, direi que, quando despeitados uns com os outros, se insultam de tivira, isto é, pederasta, o que me induz a crer, sem que o affirme, na existencia entre elles desse abominavel vicio.

Quando está gravida uma mulher, nem porisso abandona o seu labor ordinario, apenas evita carregar pesos fortes.

A mulher entre os tupinambás trabalha muito mais que o homem, pois exceptuada a faina dos roçados, que só executam pela manhã, os homens não fazem mais nada fóra da caça, da guerra e do fabrico de armas e ornatos de pennas.

Certa vez, pernoitando com um companheiro numa aldeia, ouvimos á meia noite gritos de mulher, e julgamos logo que fôra alguma assaltada pelo jaguar.

Acudimos de prompto e verificamos que se tratava apenas de mulher em dores do parto. O marido recebeu a creança nos braços, e, depois de amarrar o cordão umbilical, cortou-o com os dentes. Em seguida, fazendo as vezes da parteira, esmagou com o pollegar o nariz do recem-nascido, pois o nariz chato é lá belleza como entre nós o nariz fino.

Apenas sae do ventre materno é a creança bem lavada e logo pelo pae pintada de preto e vermelho, sendo, sem nenhum enfaixamento, collocada na rede de algodão. Se é um macho, o pae dá-lhe logo uma espadinha de pau, arco e flechazinhas de pennas de papagaio, dizendo, a beijal-a:

- Meu filho, que quando cresceres sejas dextro nas armas, forte e valente na vingança contra teus inimigos.

Quanto ao nome, o pae dessa creança que vi nascer escolheu o de Oropacen, isto é, arco e corda. Fazem com elles com nós aos cães e outros brutos; dão-lhes nomes de coisas ou animaes, Sarigué, um quadrupede, Arinham, gallinha, Arabutan, pau-brasil, Pindoba, certa arvore grande, etc.

A alimentação da creança consiste em farinhas mastigadas e carnes tenras, além do leite materno. A mãe fica na rede apenas um ou dois dias; depois se levanta, pendura o filho ao pescoço, por uma cinta de algodão, e volta ao serviço usual.

Isto não digo para derogar os habitos das nossas mulheres, as quaes, em vista dos nossos máos ares, ficam de cama de quinze a vine dias, e além disso se mostram de tal mimo que apezar de sans commettem a deshumanidade de entregar os filhinhos a pessoas estranhas, que os levam para longe, onde morrem sem que as mães o saibam, e se não morrem só voltam quando, crescidinhos, já servem de entretenimento.

Se alguma dama de melindres julgar que a offendo comparando-a com as indias, cujo trato rural em nada as iguala com a delicadeza das nossas, limitar-me-ei a envial-a á escola dos animaes, onde a começar pelos passarinhos todos ensinam a lição do trabalho e do cuidade com a progenie.

Taes damas não serão mais delicadas de corpo que aquella antiga rainha de França, cujo filho recem-nascido mamou em outra mulher; tão enciumada ficou ella que só teve socego ao fazer a creança vomitar o leite estranho.

Voltando atrás noto que por aqui ha a crença de que se as creanças não forem ao nascer bem apertadas em faixas ficarão aleijadas ou de pernas tortas.

Ora, tal não se dá com os meninos americanos; não são enfaixados e não é possivel existirem creaturinhas maisdesempennadas no andar.

Admittindo que isto em parte venha da benignidade do clima, concordo que no inverno se enroupem cá os meninos, pois do contrario não resistiriam ao frio.

Mas na estação calmosa ou temperada parece-me que o bom seria deixal-os espernear nos berços sem constrangimento nenhum. Deve prejudicar a essas tenras creaturinhas o conservarem-nas durante o calor semi-assadas nos mesmos coeiros do inverno.

Todavia, para que não me accusem de metter-me no que não é da minha conta, deixo aos paes e amas de cá que governem as creanças como o entendam.

As mulheres americanas não possuem fraldas de panno para limpar os meninos; usam folhas de arvores, ou os limpam com pauzinhos em forma de cavilhas, fazendo tão bem o serviço que jamais os vereis emporcalhados.

E já que toquei nesta materia suja, direi ainda que os meninos selvagens ordinariamente urinam no meio das casas, não advindo d'ahi fedor graças ás fogueiras que accendem e á areia com que recobrem o chão; quanto ao resto, defecam longe das moradias.

Os selvagens cuidam de todos os seus filhos, aliás numerosissimos, não chegando porém a haver pae com seiscentos, como contam de certo rei das Molucas, o que me parece prodigio.

Os filhos varões gosam de maior estima, visto serem osfuturos homens de guerra.

Se me perguntar o leitor o que os paes ensinam aos filhos, respondereienviando-o aos capitulos oitavo, decimo quarto e decimo quinto, nos quaes falei da indole guerreira dest gente, e dos quaes se vê que não possuem escolas de sciencias ou artes liberaes; a occupação habitual dos grandes e pequenos é a caça e a guerra, como verdadeiros successores de Lamech, Nemrod e Esaú, e ainda a anthropophagia.

No casamento os homens guardam uma honestidade natural, e affirmo, em contrario de outros, que jamais se unem ás mulheres em publico, no que superam ao philosopho cynico que, apanhado em copula, sem vergonha nenhuma disse que estava plantando um homem. Tambem são incomparavelmente mais infames que os nossos selvagens esses bodes fedorentos que em nossos dias não occultam as suas obcenidades.

Apesar de vivermos quasi um anno naquelle paiz, frequentando a miude as suas aldeias, nunca percebemos nas mulheres vestigios de menstruação. Penso que ellas os afastam ou se purgam de modo diverso das europeias, pois vi raparigas de doze e quatorze annos cujas mães as punham de pés juntos sobre uma pedra e com um dente afiado lhes faziam incisões no corpo, do sovaco ao joelho, e as raparigas com grandes dores sangravam assim por certo espaço de tempo. Talvez fizessem isso para obviar que se lhes visse a impureza.

Se os medicos me perguntarem como podem ser prolificas as mulheres casadas, já que sem menstruação não pode haver concepção, direi que não pretendo resolver o caso, nem proseguir no assumpto.


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