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NOSSOS PERSONAGENS
Elizabeth
Barret:- Consta que Elizabeth teve uma infância
relativamente feliz; brincava muito, principalmente
com o mais velho dos seus irmãos; complementando os
estudos regulares, lia com denodo, com aprendizado dos
idiomas grego e francês e escrevia tragédias em verso.
Infelizmente, com a idade precoce de
quinze anos, motivado por uma tosse violenta e uma
grave lesão nas costas, lesionou quase que
irreversivelmente a espinha dorsal e, o pior, afetou
sensivelmente os pulmões.
Não bastando isso, perde a mãe; depois
de quatro anos, seu pai vende a casa e, depois de um
período de sofrimento, finalmente adquire a casa de
Wimpole Street, local em que a já frágil saúde de
Elizabeth se debilitou ainda mais, fazendo com que
praticamente se isolasse do mundo exterior.
Robert Browning:- Robert,
convivia em um lar cujos pais benevolentes, irmã
prestimosa, em uma casa muito agradável, localizada em
Camberwell, propiciavam-lhe tempo de sobra para se
dedicar e escrever poesias. Possuidor de vasta
cultura, proveniente dos inúmeros livros que lera, e,
logicamente, dos ensinamentos de seu pai, um
verdadeiro intelectual, com proficiência nas
literaturas, espanhola, francesa, grega e italiana.
Por suas vez, contrastando com Elizabeth, pela sua
versatilidade, cultura e boa aparência, Robert
extrapolava dos seus limites domésticos, participando
ativamente do mundo elegante e distinto da época. Num
cargo público, secretariando um diplomata de carreira,
viajou duas vezes a Rússia e, também duas vezes na
Itália, cujo país, aliás, considerava como a sua
segunda pátria.
A ADMIRAÇÃO E O RESPEITO PELA JÁ
FAMOSA POETISA ELIZABETH
Numa determinada etapa da sua vida,
Robert, partindo da Itália, com regresso à Inglaterra,
sentiu-se momentaneamente desorientado, procurando
achar uma novo oriente para a sua vida, entregando-se
com denodo à leitura; foi nesse ambiente de
transformação, provavelmente vulnerável, que pela
primeira vez leu os Poemas de Elizabeth Barret,
editados em dois volumes.
Seduzido de forma irremediável pelos
escritos, exatamente ele que se julgava um
intransponível nos caprichos do amor, percebeu de
forma arrebatadora que sucumbira aos versos fluentes,
enamorando-se perdidamente pelo espírito e
inteligência daquela poetisa.
Consciente do fato, de uma forma
arrebatadora, pegando na caneta, alinhavou com certeza
uma das mais celebres confissões de um amor virtual
que se têm conhecimento:
"Amo os
seus livros com todo o meu coração e amo-a também a
si...."
PRELÚDIO DE UM GRANDE AMOR
Naquele dia de 1845, extremamente
frio, posicionada em seu sofá favorito, no segundo
andar da casa de Wimpole Street, já acostumada a
receber um volume considerável de correspondência,
Elizabeth mudou de uma forma abrupta o seu já
tradicional comportamento; quando uma carta mais
ousada insinuava algo que saísse do essencialmente
restrito espectro da poesia, sem titubear, tinha um
endereço certo: a incineração.
Num procedimento inusitado, depois de
abrir e conferir as correspondências, num gesto
delicado, separou uma delas ternamente que parecia ter
arrebatado àquele sofrido coração de mulher, cujos
dizeres ficaram arraigados para sempre:
"Amo os
seus versos com todo o meu coração. Amo estes livros e
amo-a a si também. Sabe que uma vez estive quase a
conhecê-la pessoalmente? Uma manhã, o senhor Kenion
perguntou-me: "Gostaria que eu o apresentasse a Miss
Barret? "E foi anunciar-me, mas pouco depois voltou
dizendo que a senhora não se sentia bem e assim
regressei a casa. Será que nunca a conseguirei ver? De
qualquer maneira, quero dizer-lhe que era necessário
que os seus poemas fossem escritos para que tão grande
alegria e tão sincera satisfação despertassem no seu
devoto admirador Robert Browning."
"ABRE-TE SÉZAMO!"
Como no famoso conto "Alí Babá e Os
Quarenta Ladrões" , um dos mais populares de: "As Mil
e Uma Noites", a carta de Robert , praticamente abriu
as portas do coração de Elizabeth.
Embora não conhecendo-o
pessoalmente, mas sim a sua obra ainda desconhecida do
grande público, tomada por um impulso e disposição
incomum, começou a responder:
"De todo o
coração lhe agradeço, caro Sr. Browning"
...
"Os
Invernos cerram-me todo o horizonte tal como cerram os
olhos dos...."
...
Embora timidamente, numa composição
poética em forma de carta, ou como dizem os doutos,
"epistolar", Elizabeth procurou delicadamente
responder aos anseios do admirador:
"Na Primavera veremos...
...
"Sua dedicada amiga, Elizabeth
Barrett."
Subseqüentemente, consta que em
número de 573 cartas, a história registrou uma das
mais impressionantes, comovedoras e reveladoras
expressões de relações humanas de que há notícia
As cartas que Elizabeth recebia, agora
quase que diariamente, do desconhecido Robert, eram
verdadeiros golpes com uma vibração exponencial sobre
os muros da casa situada em Wimpole
Street 50.
INTERPRETANDO A FRASE
" Na Primavera veremos..."
O poeta interpretou a frase em
epígrafe como um convite encorajador; porém, a
seguir,embora com moderação, Elizabeth respondeu-lhe:
"A
minha Primavera chega mais tarde"
FINALMENTE O ESPERADO ENCONTRO
Numa terça feira da segunda quinzena
de maio, Robert adentra pelo número cinqüenta de
Wimpole Street, dirigindo-se ofegante ao local em que
Elizabeth se encontrava. Como que para sacramentar
esse primeiro encontro, a poetisa escreveu:
"Desde
que chegaste foi como se fosse para sempre."
Amigos comuns atestaram que Robert
ficou loucamente enamorado e mais do que depressa, por
escrito, confessou-lhe a sua paixão.
Elizabeth, profundamente angustiada,
devolveu-lhe a carta (a única que falta na
correspondência posteriormente publicada em dois
volumes) e, embora em tom de afeto,assinando a
correspondência com amizade e gratidão, proibiu
ao galante admirador de falar ou comentar tais
assuntos.
A CORRESPONDÊNCIA ENTRE AMBOS
CONTINUA
A troca de informações se processava
de maneira muito intensa, estabelecendo-se uma
inequívoca compreensão entre os dois poetas. O vínculo
de carinho e intimidade que se formava proveniente da
troca de correspondência, por mais paradoxal que possa
parecer, era até maior do que os contatos pessoais
mantidos religiosamente toda semana.
O MILAGRE DO VIGOR SE RENOVA
A presença de Robert na casa era como
um balsamo para Elizabeth, dando-lhe novas forças para
lutar contra a implacável doença que teimava em deixar
de manifestar-se em seu corpo. Todavia, com a
consolidação dos fatos, não demora muito para
acontecer o que poucos , por mais otimistas e
esperançosos que fossem, acreditavam que pudesse
acontecer.
Numa bela manhã de Verão, sentindo-se
muito bem disposta, Elizabeth liberta-se do velho sofá
e num feito há muito não presenciado por ninguém,
passeia leve e solta pelo quarto e, postada junto à
janela, respira fundo o ar puro.
"Agora já
me sinto viver", exclamou.
Da sua parte, Robert intensifica de
forma insofismável os seus impulsos amorosos,
escrevendo-lhe de uma maneira bem mais livre, arrojada
até, ciente de que a oposição de Elizabeth, temerosa
que em virtude da sua pouca saúde, de alguma maneira
pudesse atrapalhar a sua própria vida.
PRESA AINDA AOS GRILHÕES DA MENTE
Apesar dos esforços do apaixonado
Robert, Elizabeth, já com quarenta anos de idade,
relutava e custava libertar-se dos longos e sofridos
anos de invalidez que foi vitima, e nem do respeito
exagerado que tinha pelo quase tirano pai, Edward
Moulton Barrett, a cujo jugo ainda se mantinha.
Mesmo estando irremediavelmente
apaixonada, para ela, fragilizada emocionalmente, e
ainda apresentando uma debilidade física pela doença
implacável, esse quadro representava uma barreira
intransponível.
Todavia, estimulada insistentemente
por Robert, a poetisa retirava forças sabe lá de onde
e de que maneira, para num grande esforço, sair do
quarto e descer ao andar inferior, feito raro,
principalmente com a chegada do rigoroso Inverno.
Apesar dos progressos incomensuráveis,
ainda mantinha o receio de ser um estorvo para o seu
amado, e o pior, ser descoberta nas suas relações
sentimentais; com certeza, se o pai soubesse disso,
com grande probabilidade destruiria todas as
correspondências existentes, e o pior, proibiria de
forma enérgica que Robert voltasse a freqüentar a
casa.
A SONHADA FELICIDADE
A medida que os dias avançavam, de uma
forma arrebatadora, envolvidos ainda em constantes
receios, o amor de ambos crescia e consolidava-se
ainda mais. Nesse ínterim, com a chegada da Primavera,
numa análise mais apurada da situação, ambos tomaram
uma decisão: partirem juntos para Itália.
Temerosa ainda, Elizabeth procurou o
fortalecimento físico em pequenas caminhadas, passeios
em lugares mais arborizados, visitando pessoas amigas,
enfim, criando energia e coragem para concretizar o
sonho de uma união feliz com o seu amado.
Todavia, os dias pareciam "galopar",
dando a sensação que a rotação cíclica e irremediável
das estações climáticas conspiravam contra eles; o
Verão aproximava-se do final e outro Inverno, com
certeza, seria mais uma tortura para a sua pessoa.
Conspirando ainda mais com esses temores, o pai de
Elizabeth resolveu reformar a casa de Wimpole Street,
sendo necessário o remanejamento de todos da família
pelo menos por um mês, para longe das imediações.
Em verdadeiro pânico, Elizabeth envia
uma mensagem ao seu namorado. Robert, com a
sensibilidade do poeta e do apaixonado, interpretando
tal missiva como um pedido de "socorro", responde:
"Se
partires o nosso casamento será adiado pelo menos um
ano. Já tivemos ocasião de verificar o que ganhamos em
esperar até agora. Devemos, pois, casar imediatamente
e partir para Itália. Hoje mesmo pedirei a licença e,
deste modo, o casamento poderá realizar-se no próximo
sábado."
Não vacilando desta vez, numa manhã de
sábado, mais precisamente em 12 de setembro de 1846,
Elizabeth acompanhada da fiel criada, cujo pretexto
foi o de visitar uma amiga, vai ao encontro do seu
amado.
Precavendo-se, pois sentia ainda uma
grande fraqueza, comprou em uma farmácia um remédio
que de alguma maneira evitou que ela simplesmente
desmaiasse; não sem muito esforço, Elizabeth conseguiu
chegar a Igreja onde Robert, juntamente com um primo,
esperava ansiosamente. De forma discreta, finalmente o
casamento concretizou-se.
Embora feliz , porém emocionalmente
tensa e esgotada fisicamente, a poetisa teve que adiar
a fuga que tinham planejado, e por precaução,
Elizabeth regressou a casa na companhia da criada,
adiando a fuga por mais uns dias.
A FUGA
Exatamente uma semana após o enlace matrimonial, no
dia 19 de setembro de 1846, também um sábado, o sinal
verde para que fugisse foi dado. Assim, Elizabeth, sua
fiel criada, e até o seu cachorro Flusx deixaram
definitivamente para trás àquela que teria sido uma
verdadeira prisão, a casa de Wimpole Street, 50.
No plano de fuga antecipadamente planejado foi
previsto, e isso realmente se concretizou, uma
escalada intermediária iniciada na estação de Nine
Elmes, perto de Vauxhall, por trem, com destino à tão
sonhada felicidade.
ANOS FELIZES
Como nos finais dos velhos contos,
Robert e Elizabeth viveram felizes por muitos anos.
Cidades como Florença, Paris, Pisa e Roma, eram rotas
obrigatórias, desfrutando das belezas naturais, do
clima, dos amigos, e logicamente da poesia que além de
outras afinidades, unia os dois.
Elizabeth, radiante e feliz, sentia-se
muito bem de saúde, e para coroar a felicidade
definitiva daquela união, em 1849, na Primavera, deu à
luz um menino.
O DESENLACE
Na cidade de Florença, numa tarde de
junho, acometida de um repentino e inesperado ataque
de bronquite, imediatamente assistida pelo seu médico,
nos braços de Robert, a poetisa faleceu.
Num relato comovente, escrito pelo
poeta tempos depois afirmou:

"Sempre
sorrindo e com uma expressão de felicidade no seu
rosto de menina, faleceu, em poucos minutos, com a
cabeça apoiada na minha face". |
O LEGADO
Elizabeth Barret Browning legou-nos um
testemunho duradouro do seu grande e puro amor. Uma
manhã, na Itália, entregou a Robert um caderno de
poemas, mais tarde publicados sob o titulo de
Sonnets from the Portuguese (Sonetos
traduzidos do Português). Um destes é considerado o
mais belo poema de amor escrito por uma mulher, em
língua inglesa:
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Amo-te
quanto em largo, alto e profundo
Minhalma
alcança quando, transportada,
Sente,
alongando os olhos deste mundo,
Os
fins do Ser, a Graça entressonhada.
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Amo-te em
cada dia, hora e segundo:
À luz do
Sol, na noite sossegada.
E é
tão pura a paixão de que me inundo
Quanto
o pudor dos que não pedem nada.
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Amo-te
com o doer das velhas penas;
Com
sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé
da minha infância, ingênua e forte.
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|
Amo-te
até nas coisas mais pequenas.
Por toda
a vida. E, assim Deus o quiser,
Ainda
mais te amarei depois da morte. |
|
Tradução de
Manuel Bandeira |
Créditos:
Texto interpretado
livremente, extraído da obra de Donald e Louise
Peattie, Uma História de Amor, condensado no livro
Grandes Vidas Grandes Obras (Biografias famosas)-
Seleções do Reader's Digest, em sua terceira
edição: junho de 1980, impresso em Portugal
Fontes consultadas e recomendadas para pesquisas: A
Little Archive of Poetry
A MORTE DE UM VELHO MESTRE
Erin's Elizabeth Barrett and Robert Browning Page
Recanto das Poesias
The Barratt's of Wimpole Street
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