ALMANAQUE PRIDIE KALENDAS

 DESEJA AOS SEUS VISITANTES E AMIGOS

 

PÁGINAS ESQUECIDAS

 

EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS: Quem nos acompanha mais de perto sabe que um dos objetivos do Almanaque Pridie Kalendas é trazer para a WEB um pouco dos tradicionais e populares Almanaques de papel. Nesses seis (6) anos no ar, conseguimos alcançar um pouco nossos objetivos, com um excelente nível de visitas; caímos BEM, talvez por puro acomodamento, agora estamos novamente na busca do nosso Norte. Tudo isso graça ao apoio irrestrito, a compreensão, o boca a boca, a colaboração de todos vocês. Vamos continuar? O nosso muito obrigado AMIGOS! Nesta oportunidade, estamos lançando mais um espaço virtual intitulado PÁGINAS ESQUECIDAS, um grande sucesso do Almanaque Eu Sei Tudo. Inaugurando, um artigo de 1918, O Gosto, creditado ao escritor francês, Victor Hugo (26 de fevereiro de 1802-22 de maio de 1885), autor de Les Miserábles (Os Miseráveis).

Do atrito de duas pedras chispam faíscas; das faíscas vem o fogo; do fogo brota a luz. (Victor Hugo)


O GOSTO (Mantido texto no seu original)

Há um gosto superior e absoluto, que se não redige em fórmulas, e que é simultaneamente a lei latente e a lei patente da arte. Esse gosto, o verdadeiro, o unico, é pouco conhecido d´aquelles que fazem profissão de ensinal-o. É esse gosto superior que, com espanto inexprimivel de Vitruvio, augmenta e diminue, não se sabe segundo que progressão mysteriosa, na columnata de Parthenon, o diametro das columnas e o espacejamento dos inter-columnios, erro capital em qualquer outra parte, belleza ali. É esse gosto superior que, pouco cuidadoso em ser sobrio consagra a cada instante na Illiada seis, oito, dez versos á descripção de um ferimento. É elle que, na Pesca milagrosa, do Vaticano, onde Jesus está no segundo plano, colloca no primeiro uns patos mostrando as garupas, assignados Raphael. É elle que, no deserto, faz comer a Ezechiel o que a Escriptura conta.

"O calemburgo quando é d´Eschylo, a careta quando é de Goya, a corcunda quando Esôpo a traz, a pulga quando morde Voltaiere, a queixada de burro quando Samsão a empunha, a hysteria quando o cantico dos canticos a ostenta e purpurisa, Goton no tanque da lavandeira quando apraz a Rembrandt chamal-a Suzanna no banho, o olho vasado quando é o de Edipo, o olho arrancado quando é o de Glocester, a mulher que ladra quando é Hercuba, o ronco quando vem das Eumenides, a bofetada quando o Cid a vinga, o escarro quando Jesus o recebe, as grosserias quando Homero as diz, as selvagerias quando Shakspeare as faz, a giria quando Vilon a fala, o farrapo quando Irus o arrasta, as bastonadas quando Scapin as leva, a carcassa cuando os abutres e Salvator Rosa a roem, o ventre quando Agripina o mostra, o lupanar quando Regnier a elle nos conduz, a alcoviteira quando Plauto a emprega, a seringa quando persegue Pourceaugnac, as latrinas quando n´ellas Tacito afoga Nero e quando Rabelais faz chafundar n´ellas a theveracia, fazem parte d´este grupo supremo"

Ha, portanto, faltas contra o gosto, que são bellezas. Esse gosto superior é a regra do genio; mas os rethoricos, longe de admittil-o, prescrevem o. Há o gosto de cima e o gosto de baixo, o gosto segundo o abbade de Bernis e o gosto segundo Pindaro. O que é admirável é que, de rethorica em rethorica, se tenha chegado a qualificar o gosto segundo Bernis bom gosto e o gosto segundo Pindaro mau gosto!

Na realidade, não ha bom gosto nem mau gosto. Se tentassem tirar de Homero, de Aristóphanes, de Moliére, de Shakspeare as pretensas faltas contra o gosto arrancar-lhes-ia o Achilles de Homero no Achilles de Racine. É isto que explica a razão por que os perfeitos não são os grandes, porque o Virgilio é inferior a Homero, e Ana Creonte a Pindaro, Menandro a Aristophanes, Sophocles a Eschylo, Lysippo a Phidias, Cicero a Demosthenes, Boileau a Regnier, Racine a Cornelile, Raphael a Miguel Angelo. Uns representam o gosto, os outros o genio. Não ha, porém, antagonismo, entre o genio e o gosto, ambos são essencialmente divinos. " O genio é a conquista; o gosto é a escolha. A garra omnipotente começa a empolgar tudo, depois o olho flamejante faz a selecção. Esta selecção na preza é o gosto. Cada genio a faz a seu modo" .

Victor Hugo


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