CONTOS DE NATAL


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O CASTELO ASSOMBRADO

Fonte: Livro- A Arvore de Natal ou Thesouro Maravilhoso de Papae Noél - Por Tycho Brahe - Livraria Quaresma - 1939

Ilustração e diagramação PK

***

Ha. alguns séculos, para os lados de Braga, em Portugal, existiam vários castelos, sendo que, ainda hoje, sobrevive o de Povoa de Lanhoso (figura ao lado).

De um deles, então em ruínas, com ameias derrocadas, dizia o povo que era mal assombrado e contavam-se a respeito coisas misteriosas em que os habitantes das redondezas acreditavam piamente.

Por esse tempo residia no Porto um rico ourives que casara com uma moira. Do enlace nascera uma filha lindíssima chamada Gisela e que era, segundo a voz publica, a moça mais bela da cidade e quiçá do país.

Rica, com menos de vinte anos, não lhe faltavam pretendentes, mas Gisela era dada a idéias românticas, e disse ao pai que só casaria com um mancebo, que fosse ousado cavaleiro e que, por amor dela, ganhasse fama e fortuna.

Alguns que se apresentaram desistiram de tais condições; três ou quatro mais resolvidos partiram para a guerra e jamais voltaram.

Certo dia um guapo mocetão procurou o rico ourives e pediu-lhe a filha em casamento.

Esta, sendo chamada, não achou o pretendente feio, mas perguntou que ações de valentia já cometera.

Disse-lhes o mancebo que nenhuma, mas que ia partir e ela ouviria falar dele. Pedia-lhe que lhe desse um anel de promessa, para ter animo em arriscada empresa que lhe daria fortuna e gloria.

Deu-lhe Gisela e o mancebo que se chamava Gil Annes e era de nobre estirpe, beijou-lhe a mão, abraçou o futuro sogro e partiu.

Ao amanhecer estava em uma aldeia onde passou o dia imaginando, como, e quando poderia praticar o ato que lhe valesse fama. Nada porém encontrava. Os bois, nos campos, eram muito pacíficos; o rio de águas mansas, o povo prudente, de modo que o nosso herói não pode livrar pessoa alguma da fúria dos touros, nem lançar-se á água para salvar alguém (todos sabiam nadar) nem mesmo querelar com outrem.

Entretanto, á noite, na estalagem fumarenta da aldeia, pôs-se a escutar as narrativas de um mensageiro que ha pouco chegara. Dizia ele que vários salteadores haviam naquela mesma noite saqueado a mais rica loja de ourives da cidade e roubado muitas pedras preciosas e ricas baixelas.

O joalheiro fora assassinado e a filha raptada misteriosamente.

Debalde o alcaide da cidade mandara perseguir os fugitivos. Estes se haviam dispersado em varias direções. Aflito, ouviu Gil Annes a narrativa e logo viu tratar-se de Gisela e seu pai. Conteve suas tremendas emoções e quedou-se pensativo a escutar de novo; a conversa continuava interessante.

- Mas a que vieste, afina, Thomaz, perguntou o dono da locanda ao mensageiro.

- Vim á espreita, tio Braz; bem pode ser que encontre indícios, senão dos criminosos ao menos da filha do ourives. Embora roubada e com ela a grande fortuna, sempre há o que ganhar.

- Pois por aqui, nada há; a gente da vila é a mesma, e a única pessoa desconhecida é este senhor. Gil olhou calmamente para o estalajadeiro.

- Mas este garboso fidalgo esta acima de qualquer suspeita, tornou um da roda. Além disso já se achava aqui, quando deu-se o crime.

- Soubesse eu onde está Gisela, exclamou o moço com os olhos em fogo e iria busca - lá, inda que tivesse de lutar com Satanás!

- Pois eu com o diabo não quero negócios, retrucou o mensageiro. Ainda esta madrugada vi luzes sumindo-se e aparecendo nas torres do castelo arruinado e ao passar defronte ouvi um rumor como o do trovão.

- O fato, explicou o estalajadeiro que era muito supersticioso, é que há lá dentro almas penadas. Herminio, o caçador que entrou num subterrâneo, não voltou mais.

- E o mesmo sucedeu a Ramiro, o pastor. Entrou no castelo á procura de uma ovelha desgarrada e não o vimos aparecer, acrescentou outro.

-Ah! o tal castelo é assim? indagou Gil.

-É o que se diz e a voz do povo é a de Deus. Ninguém lá entra e se entrar não volta.

Gil ficou pensativo mas perguntou:

-Quanto dista o castelo daqui?

- Duas léguas, retrucou o mensageiro.

- Pois amanhã, pela madrugada, eu irei a esse maldito castelo. Tio Braz, quero o cavalo encilhado ao romper do dia. Até amanhã.

E recolheu-se ao quarto.

No grabato, Gil não pudera conciliar o sono. Quem poderia ter morto o velho ourives? Como libertar Gisela? Todas essas perguntas irrespondíveis ele fazia a si mesmo até que adormeceu profundamente e sonhou que estava voando, voando...

***

Pela manhã, quando Gil montou, a hospedaria do Cisne, - tal era o nome da locanda do tio Braz - estava cheia de curiosos de ambos os sexos. Todos porfiavam em ver o valente mancebo e em todos os grupos contavam-se historias de bruxas e lobisomens.

-Aí! dizia uma velhota, e é tão guapo! Aí! "mé" senhor, não vá que "hay" almas do "oitro" mundo!

- É bom desistir, disse-lhe um homem alto, de barba grisalha e olhos brilhantes. Os que atravessam as pontes do castelo nunca mais voltam para beber o bom vinho da estalagem do Cisne...

- Pois bem, disse Gil, em voz alta, não serão vossas historias que me façam recuar. Eu sou pobre. Quem quer apostar como eu volto? São cem escudos de prata. Quem topa?

- Eu, disse o homem da barba grisalha, aposto que nunca mais o veremos.

- Pois seja. O tio Braz servi~á de depositário. Assim se fez e Gil partiu. Todos o lastimavam, pois o julgavam perdido.

Pouco antes de seguir a estrada que ia bater á ponte levadiça, o mancebo tomou um atalho. Parecia que uma mão invisível o guiava. Abrigado por uns rochedos ocultos entre arvores, Gil apeou-se, comeu e bebeu para refazer as forças.

Deixou o cavalo pascendo a erva tenrinha e começou a penosa súbita.

Chegado á ponte levadiça, benzeu-se e atravessou com passo firme a esburacada ponte. Gil era deveras corajoso e estava armado com uma couraça flexível sob o justilho e levava mais uma forte espada e um acerado punhal.

De um gancho de cinta pendia uma lanterna pequena.

Na cabeça pusera o elmo.

Depois de atravessar a ponte e os obstáculos, chegou ao pátio principal e percorreu outros sem encontrar viva alma. Por todos os lados os muros estavam gretados e ervas e plantas brotava. Viam-se ameias destruídas e abobadas em ruínas. Com o rumor dos passos de Gil os camaleões e lacraias se punham a correr por entre as pedras e frestas.

Percorreu o mancebo uma grande galeria com portas de ferro, e janelas com fortes grades; diversos subterrâneos se abriam aqui e ali e, por uma escada sombria, o valoroso Gil desceu, depois de acender a lanterna que levava.

Nisto o mancebo hesitou um momento. Para que meter-se nestas aventuras se a sua adorada Gisela fora raptada? Mas essa duvida pouco durou, Reanimou-se e pareceu-lhe ouvir uma voz secreta que lhe dizia:

- Segue e não te arrependerás.

Gil atravessava aquelas salas e corredores bolorentos, onde mal penetrava a luz do dia; viam-se apenas as paredes nuas, sem um móvel, nem um banco ou coisa que demonstrasse a presença de criatura humanas; só ratos e lesmas.

O sol já ia alto e tornou o jovem a pensar que a sua empresa estava cumprida.

-Aqui nada mais há que ver e bem posso voltar. Ganharei a aposta em que arrisquei os meus últimos escudos e terei a fama de que Gisela era tão ciosa. Todos falarão de mim.

Ia voltar quando ouviu atrás de si um rumor. No mesmo instante uma vigorosa pancada quebrou-lhe a lanterna e mão invisível empurrou-o para a frente. Ao mesmo tempo, por traz dele, desabou uma parte da abobada.

O subterrâneo estava obstruído e Gil desmaiado com a queda caíra num fétido calabouço.

Ao receber o golpe que prostrara sobre a laje úmida, ele ainda pode ouvir uma grande gargalhada.

Mas Gil era forte e depois de acostumar os olhos á escuridão, tateando, achou os degraus de uma escada de pedra.

Subiu-os e contou-os, até que achou uma porta. Eram dezessete. Gil empurrou a ponta do punhal na fechadura e esta caiu logo. A porta de madeira, estava podre, os gonzos carcomidos e com um forte impulso de ombros o mancebo arrumou-a.

Um bafo horrível e quase irrespirável enchido os pulmões.Lembrou-se então do isqueiro e tirou lume acendendo um rolo de cera de que se munira.

A luz fraca, Gil embora valente, estremeceu. Estava num vasto cárcere e pelo solo fugiam, com a luz, enormes ratazanas. No chão havia muitas ossadas humanas e um esqueleto ainda estava chumbado na parede.

Gil recuperou o animo e vendo outra porta arrombou-a. Evidentemente, havia anos ninguém passava por ali. Ele viu uma escada em caracol, de estreitos degraus e subiu-a com cuidado.


Assim Gil alcançou uma vasta sala e um corredor sombrio e estreito. Parecia-lhe no entanto estar mais perto da saída pois o ar era mais puro.

O corredor era em curvas e zig-zags.De súbito, pareceu a Gil ver ao longe um ponto luminoso e, mais animado, prosseguia a marcha, escorregando no solo úmido.

O rolo de cera apagara-se a muito. Afinal, numa volta, o ponto luminoso aumentou de intensidade e Gil viu com prazer que era a luz colorida do ocaso do sol que entrava por um alto orifício.

Ia prosseguir quando ouviu vozes de homens. Escondeu-se num angulo sombrio e escutou. O coração batia-lhe com força apesar da sua valentia.

Gil dera em cheio com uma quadrilha de salteadores que haviam feito do castelo abandonado o seu antro.

E podiam estar ali, á vontade, protegidos pela crença popular de que o castelo era assombrado. Gil estremeceu. Por isso é que os curiosos e valentes não voltavam mais.

Os bandidos os massacravam.

Ai de Gil se o vissem, e o susto deste cresceu quando ouviu que falavam dele.

-Então o tal moço valente perdeu a aposta, Capitão.

De certo, respondeu este que era o homem das barbas grisalhas. E não será o ultimo.

-Matou-o? -Não. Deixei-o contemplar as nossas muralhas e penetrar no castelo. No pátio ele tomou, como todos os que o procederam, o corredor que vai ter ás masmorras.

-Compreendo, disso o interlocutor, que era o tenente da quadrilha.

- Eu reparara há dias que havia um trecho da abobada a desabar perto do grande calabouço.

Segui-o e á beira dele quebrei-lhe um braço e joguei-o no poço. Para mais certeza fiz desabar a abobada que vedou-lhe a retirada. Morerá da queda ou de fome.

- Muito bem. - E a prisioneira? - Está calma, presa e bem guardada no torreão do Sul. - Não quer pagar o resgate? - Disse que não comerá para morrer á mingua.

- Eu virei amanhã ver essa beldade. Gil tremia de cólera, mas conteve-se. Que podia ele fazer contra tantos homens?

Depois ele ouviu tinir moedas. Era o tenente que também servia de tesoureiro, fazendo a partilha do roubo de ourivesaria.

- E o nosso tesouro, como está? perguntou o homem das barbas grisalhas.

-No mesmo lugar. É só afastar as três Lages.

- Bem, rapazes, a noite vem aí. Cada um que se vá esgueirando; eu sairei por ultimo e taparei a entrada.

Os salteadores foram se retirando um a um; Gil segui-os com a vista; a saída era para o campo.

Restava o capitão. Relanceou o olhar em torno e abaixou-se para descer por uma espécie de poço abandonado.

Nisto Gil, com a rapidez do relâmpago, correu com o punhal erguido e cravou-o brutalmente nas costas de Tristão.

Era esse o nome do capitão de ladrões, que vivia na aldeia disfarçado em alfaiate.

O chefe da quadrilha proferiu uma blasfêmia afogada numa vaga de sangue, escabujou no solo e ficou inerte. Estava morto.

Gil Annes, tremulo, saltou no poço empedrado e seco e galgou-lhe a borda.

Então respirou livremente, ajoelhou dando graças a Deus e foi pela charneca procurar o cavalo.

O murzello, pressentindo o dono, relinchou alegremente. Gil cavalgou-o e partiu a galope para pedir auxilio e libertar Gisela.

Quando chegou á hospedaria do Cisne já era alta noite, o hospedeiro sorriu ironicamente, pois não acreditava que pessoa alguma tivesse animo de ir ao Castelo Assombrado. Gil não discutiu e foi acordar o mensageiro que era um aguazil (*) mandado pelo alcaide.

Inteirado do fato, o aquazil felicitou vivamente o moço; o alcaide, acordado em meio de um bom sono, abraçou ternamente o mancebo, cujos pais conhecera e deu-lhe uma poderosa escolta sob seu direto mando.

No dia seguinte os soldados cercaram o castelo e se apoderaram do torreão. Os dois salteadores que guardavam a formosa Gisela foram mortos e ela abraçou agradecida seu bravo salvador.

Gil mostrou ao alcaide a entrada do subterrâneo e o poço em que matara Tristão, o alfaiate salteador. O tenente da quadrilha, denunciado pelo aguazil que revistando o cadáver achara papeis comprometedores, também indicou seus cúmplices.

Foram todos sumariamente enforcados.

Mais tarde Gil descobriu os tesouros da quadrilha e o que fora roubado ao pai de Gisela.

O tio Braz, dono da locanda, entregou os escudos da aposta de Gil com o homem das barbas. O moço deu-os ao aguazil pelos seus bons serviços.

Com o dinheiro achado Gil restaurou o castelo e converteu-o num convento de monjas. Depois do luto paterno, Gisela casou-se com Gil. Ambos foram felizes e muito amigos dos pobres.


(*) Aguazil - antigo oficial da policia espanhola.

 

A FADA

Por: G. Lenotre

Fonte: Almanaque Eu Sei Tudo - 1939

Éramos cinco ou seis, reunidos naquela noite, no modesto café de uma pequenina cidade bretã.

Solteiros, simples viajantes, como eu, ou demasiadamente idosos, estávamos, ali naquela noite sagrada, porque nenhum de nó tinha família no lugar e é muito triste passar a vigília do natal em um quarto de hotel ou em uma casa deserta.

Sem combinação prévia, tínhamos resolvido esperar a meia noite ali e tendo, esgotado nossos limitados assuntos para palestra, ficamos longos minutos em silencio, fumando e refletindo.

Digam lá o que disserem os que se consideram espíritos fortes; há dias e horas de irresistível poder sugestivo. A noite era uma noite como outra qualquer: escura, fria...

Mas a idéia da celebração religiosa lançava em nossas almas uma onda profunda de misticismo.

De repente, como se respondesse aos secretos pensamentos da roda, um de nós, o tenente Kerlec, bateu na mesa com a mão longa e ossuda, respirou com força e murmurou:

- Foi numa noite assim que eu vi uma fada... Sim... sim... não riam. Dadas as circunstancias e... e a idade que tinha então, a figura que me apareceu era uma fada.

O tenente Kerlec era um reformado da Policia e devia ter mais de oitenta anos. O corpo mantinha-se sólido mas o rosto exibia tais estigmas do tempo que não pude conter um sorriso ao ouvi-lo falar tão seriamente em uma recordação infantil.

Porém ele já continuava.

- Eu tinha então doze anos; mas naquele tempo, não havia colégios á inglesa, nem esportes, nem essas modernices... Com doze anos eu era uma criança, conservando todas as ilusões, que os meninos de hoje se envergonhariam de ter aos seis. Acreditava firmemente em Papai Noel, em fadas.

Foi em 1832. Naquele tempo a política não era uma comedia como hoje; era uma coisa trágica, onde havia sangue, dedicações extremadas, ódios implacáveis. E como não havia jornais, os fatos só eram conhecidos de boca em boca, tomando um caráter misterioso, que ainda mais exaltava os ânimos.

Os senhores devem saber o que era a situação naquela época. A revolução de 1830 pusera no trono da França o príncipe de Orleans.

Na Bretanha a indignação fora geral. Aqui, ninguém admitia Luiz Felipe senão como um usurpador e cada qual tinha a um canto um fuzil pronto, para o dia em que fosse possível empunhá-lo na defesa do rei legitimo.

Carlos X morrera, mas deixara um filho, o pequenino príncipe Henrique, exilado na Escócia.

Eu, como já disse, era uma criança; mas, por isso mesmo, conversavam livremente diante de mim. E eu ouvia contar aquelas intrigas tenebrosas, como historias maravilhosas.

Dizia-se que a mãe do príncipe, a duquesa de Berry, andava pela Bretanha, disfarçada, promovendo um levante em favor do rei legitimo e todas as noites, apos a oração, minha mãe me fazia pedir a Deus a vitória do rei legitimo.

Mas confesso que não acompanhava com muita atenção os longos conciliábulos em que meu pai passa longas horas com vizinhos e amigos, discutindo essas coisas.

Minha memória guardava mais nitidamente os incidentes capazes de impressionar um espírito infantil. Por exemplo, lembro-me perfeitamente de que, em fins de Dezembro, num dia de grande chuva, um "bufarinheiro", como chamavam então os vendedores ambulantes, começou a instalar sua tenda na única praça da cidade, justamente diante de nossa casa. Comecei por estranhar aquilo. Em geral, bufarinheiros só apareciam ali por ocasião da festa do padroeiro da cidade, que caia em 27 de Maio. Só então se viam ali aquelas tendas cheias de brinquedos, sabonetes de varias cores, lâmpadas de fantasia.

Meu pai também manifestou surpresa e mais até, indignação. Que significava aquilo? - resmungava ele furioso. Que vinha aquele homem fazer ali, tão fora de propósito... Só podia ser um espião, u8m policial disfarçado. Talvez impressionado por isso, comecei a achar que o bufarinheiro tinha uma expressão singular de falsidade e perfídia; mas sua tenda era tão bonita que, embora formalmente proibido de me aproximar do "espião", eu passava o dia de nariz encostado a vidraça da janela, admirando os polichinelos, soldados, bicos de todas a espécies, bolas e petecas, que enchiam dezenas de prateleiras.

Quando me surpreendia assim, meu pai me afastava com mau humor, repetindo: 

- Mas que demônio estará esse miserável fazendo ai?

No dia seguinte, notei que meu pai e minha mãe pareciam inquietos, cochichando de instante a instante e parecendo quase assustados. A tardinha, depois de amaldiçoar repetidamente o bufarinheiro, que não se resolvia a fechar a tenda, meu pai apanhou um martelo, dirigiu-se ao fundo da casa e começou a arrancar as taboas com que, há muitos anos, havia pregado uma porta, que dava para um campo deserto. Como eu o tivesse seguido, com a curiosidade natural de minha idade, ele declarou, á guisa de explicação:

-Enquanto este miserável estiver plantado diante de nossa casa, ninguém mais entrará nem saíra pela porta da frente.

E como para provar que era essa sua resolução, apenas conseguiu abrir a porta há tanto condenada, colocou entre minhas mãos um pequeno cesto cheio de maçãs e ordenou-me que fosse, através do campo vazio, levá-lo á casa do Sr. Vigário, recomendando-me muito que não passasse em rua alguma ... fosse pelo campo.

O vigário, ao ver as maçãs, que nada tinham de extraordinário, manifestou profunda emoção e juntou as mãos murmurando:

- Nossa Senhora! Que Deus a proteja!

Voltei para nossa casa e fiquei estupefato ao ver, sentada na sala comum, uma mulher vestida como uma camponesa qualquer, mas tão bonita e tão ... não sei como diga, tão distinta, que me impressionou profundamente.

Ela estava muito quieta, com o rosto apoiado a uma das mãos e parecia muito triste. Ao ver-me, tomou-me pela mão e, recomendando-me silencio, levou-me para minha cama, colocada em um recanto da sala, ordenando-me que dormisse sem mais demora e, sobretudo, sem dizer coisa alguma.

Obedeci, intimidado, com uma convicção profunda de que aquela mulher não era "como as outras".

Já deitado e imóvel, notei que meu pai se mantinha no fundo do quarto, de pé, com as mãos como se estivesse em oração e junto dele estava um homem alto, com ar muito serio e preocupado, com o chapéu em baixo do braço. Todos ficaram calados, não sei por quanto tempo, porque não resisti ao sono e adormeci.

Também não sei quanto tempo estive dormindo. Fui despertado por uma luz próxima de meu rosto e uma voz que dizia:

- De quem é este garoto? Que lindo! Acorda meu querido... Meu Deus, como é louro! Que idade tem ele?

- Doze anos - explicou minha mãe.

A senhora misteriosa, que até então se limitara a acariciar-me os cabelos, repetiu com a voz mudada - "Doze anos!" - e segurando-me a cabeça com as duas mãos, observou atentamente meu rosto, depois apertando-me contra o peito, murmurou:

- Que monstruosidade! Eu também tenho um filho de doze anos, de tua idade, meu filho e não posso vê-lo... Há gente tão má que o mantém longe de mim e talvez nem pronuncie meu nome diante dele. Isso é monstruoso... monstruoso!

E apertando-me ainda mais entre os braços, desatou em soluços.

- Minha senhora... - murmurou o homem grave e alto.

-Oh! - exclamou ela - Deixem-me em paz.

Não posso dizer uma palavra, fazer um gesto, sem que me chamem as conveniências, á etiqueta. Que estou eu fazendo de mal? Eu tenho um filho desta idade e não posso vê-lo... Deixe-me, Menars.

O homem grave afastou-se e ouvi-o dizer a meu pai:

- Toda vez em que encontra um menino desta cidade, fica assim.

Entretanto, a linda senhora que só a mim parecia ver ali, dizia-me.

- Eu hei de voltar aqui com o meu Henrique. Hei de voltar publicamente, de cabeça erguida e ele brincará com você, trará muitos brinquedos... Você não gosta de brinquedos? Oh! ... Há um bazar mesmo ali em frente... Que sorte!

E amarrando sua touca de camponesa, a linda senhora preparou-se para sair. Em vão meu pai e o homem, que ela chamava Menars, tentaram dissuadi - lá de se mostrar na rua, alegando que isso era uma imprudência e podia complicar-lhe.

- Ora, adeus! - dizia ela - Vocês vivem vendo perigos em toda a parte. Quem muito se esconde é que acaba despertando desconfianças.

E assim falando, tentava endireitar sua toalete, com um desajeito, que mostrava bem não estar acostumada a roupas daquela natureza. Meu pai interveio também, em tom muito respeitoso mas insistente, dizendo que exatamente o dono do bazar instalado diante de nossa casa parecia-lhe um homem esquisito, chegara ali dias antes e vendia tudo tão barato que demonstrava mais desejo de conversar com os fregueses do que de ganhar dinheiro. Tudo foi inútil.

A formosa dama irritou-se e disse em tom altaneiro:

- Pois se estão com medo, fiquem aí. E, tomando-me pela mão, dirigiu-se a porta da rua com ar tão resoluto que meu pai apressou-se a abrir e acompanhou-a. Minha mãe e Menars fizeram o mesmo.

Atravessamos a praça e fomos até a tenda do bufarinheiro diante da qual estacionavam, em êxtase, todos os garotos da vizinhança.

Talvez impressionado pelas palavras de meu pai, pareceu-me que o negociante fitava a suposta camponesa com demasiada atenção e um sorriso singular; porem ela, sem sequer olhar para ele disse-me:

- Vamos, escolhe, meu querido.

E como eu hesitasse, timidamente, começou ela própria a apanhar tudo quanto julgava interessante nas prateleiras da tenda.

-Olha... Não gostas deste polichinelo... E essa carroça com um cavalo... Que é o que você quer mais? Escolhe tolo... Ah!...se fosse o meu, já tinha deitado mão a tudo quanto está aí. O senhor não tem soldados...caixa de soldadinhos de chumbo?... Não. Este não quero... São granadeiros de Napoleão... Prefiro aquela carrapeta... a grande... a maior.

Meu pai puxava-a pela manga do casaco, visivelmente assustado; Menars erguia os olhos para o céu, resignado mas aflito. Porem sem lhe dar atenção alguma ela continuava a escolher os mais lindos brinquedos; depois disse no tom mais natural deste mundo, como se estivesse em sua casa.

- Paga, Menars.

O homem alto e magro obedeceu e voltamos.

Eu trazia nos braços duas bolas, um jogo de garrafas, um cavalo de pau, três mobílias e uma caixa de soldados; minha mãe carregava no avental uma arca de Noé, um carrinho e uma raquete; meu pai trazia um macaco de pelúcia, uma caixa de construção e um álbum de figuras e o próprio Menars encarregou-se de trazer um papagaio, um bilboquê e um arco com campainha.

Eu mal podia respirar de felicidade e, os garotos da vizinhança fitavam-me com inveja. Mas apenas me vi em casa, posto de novo em meu leito, com todos aqueles tesouros em torno de mim, fiquei de repente triste ao ver as lagrimas com que a formosa senhora me contemplava.

Essas lagrimas fizeram-me compreender que ela dera todos esses brinquedos não a mim, mas á lembrança de seu filho, que estava longe, muito longe, em um castelo da Escócia. E de ver chorar tão tristemente aquela mulher, que parecia tão boa e tão infeliz, senti também os olhos cheios de lagrimas e ocultei o rosto sobre os cobertores para que não me vissem chorar, no momento em que tudo parecia concorrer para minha alegria.

Assim, chorando quieto e calado, acabei por adormecer.

No dia seguinte quando despertei, minha primeira preocupação foi procurar a misteriosa visitante...

Mas percorri em vão toda a casa. Estavam ali apenas meus pais e se os brinquedos não continuassem acumulados em torno de meu leito, eu seria capaz de jurar que não tinha havido ali visita alguma e tudo quanto eu guardava na memória fora um sonho.

Timidamente interroguei minha mãe:

-Aquela moça... onde está? Já se foi embora? - Silencio! - disse-me minha mãe em voz baixa - Não fales naquela senhora. Por que? Quem é ela?

- É ... é uma fada - disse minha mãe, com voz tremula. Eu aceitei a explicação, com regozijo imenso. Uma fada! Sim... somente uma fada poderia aparecer e desaparecer assim de um modo inexplicável e dar tantas coisas lindas...

Demais, o silencio, que minha mãe me pedia enchia-me de orgulho. Era aquela a primeira vez em que me confiavam um segredo e quando um menino da vizinhança me perguntou pouco depois: -

"Quem te deu esta bola?" - eu respondi altivamente: - "Foi uma fada".

Mas, passados uns quinze dias meu pai entrou em casa com ar sombrio e falou em voz baixa a minha mãe. Esta desatou a chorar e como eu corresse a abraça-la, ela me disse entre lagrimas:

-Ah!... meu filho... É preciso orar muito, pedir a Deus pela boa fada, que te deu todos aqueles brinquedos. Homens malvados prenderam-na em Nantes.

- Prenderam-na ... por que? - Porque o bufarinheiro a reconheceu, seguiu-a e denunciou-a.

- Mas se ela é uma fada... - insisti.

- É uma fada boa... Por isso é perseguida pelas más.

- É melhor dizer-lhe tudo - interveio meu pai, impaciente. - Aquela senhora é Sua Alteza a duquesa de Berry. Guarde bem este nome em teu coração e lembra-te sempre dos beijos que ela te deu, do carinho com que te tratou... Lembra-te de que ela esta lutando pelo verdadeiro rei da França, que o usurpador mantém no exílio.

***

O velho Kerlec calou-se de súbito, muito comovido e havia em seu olhos fatigados um fulgor tão intenso que eu esqueci suas rugas, sua idade e julguei ver, na expressão de seu rosto, um reflexo da emoção infantil que o dominara naquela noite de Natal, já tão distante.

G. lenotre

 

Uma lenda de Natal

A revista Seleções tradicionalmente, nos meses de dezembro, publica artigos sobre a festa máxima da cristandade, apreciados por seus milhões de leitores; em nossa coleção (infelizmente incompleta) temos inúmeros.

Dentre os muitos artigos examinados, escolhemos um que retrata com graça e poesia o que representa a data para todos nós. (dezembro de 1987)

O artigo de Arthur Gordon foi também publicado no “THROUGH MANY WINDOWS”, por Fleming H. Revell., Nova Jersey.

Uma lenda de Natal

De todas as coisas vivas na floresta, somente duas ficaram de vigília naquela noite de inverno. – Autor: Arthur Gordon”

Há muito tempo, quando os rios eram prateados, dois deles corriam, não muito longe um do outro, em direção ao oceano. Quando os dias invernosos eram curtos, durante um crepúsculo frio e cinzento, o vento falou aos animais e às aves e às árvores e aos arbustos que viviam naquele terreno.

“Esta noite”, sussurrou o vento, “vocês devem ficar acordados e alerta, pois poderão ser surpreendidos por um grande acontecimento. O quê ou aonde isso vai suceder eu não sei dizer, porque sou apenas o vento. Mas haverá um sinal e, quando vocês o virem, devem rejubilar e dar graças, pois a partir desta noite nada será como dantes. Fiquem acordados, então, e estejam preparados!”

E o vento partiu, suspirando através dos pântanos ambarinos, e o crepúsculo adensou-se e as estrelas surgiram. Os animais e as aves e as árvores e os arbustos reuniram-se em conselho. Na maioria estavam duvidando, e alguns estavam francamente desdenhosos.

“Quem é que pode acreditar naquilo que o vento sussurra?” diziam.

E, um a um, adormeceram nos brejos os alces e as raposas, os esquilos e os ursos hirsutos.

Até perambuladores noturnos, como os guaxinins e os sarigues, se recolheram às suas tocas. As vozes das aves silenciaram. Todos fecharam os olhos e dormiram.

Todos, exceto um passarinho marrom. Alguém tem de ficar acordado, disse ele para consigo, e estar preparado para rejubilar e dar graças se realmente acontecer algo de maravilhoso. Ficarei alerta.

Procurou um arbusto ou uma árvore onde se empoleirar, mas nenhum o queria. “Você e os da sua espécie passam aqui o dia inteiro”, resmungaram eles. “À noite nós precisamos repousar.”

Então, um arbusto alto e sem folhas se apiedou do pássaro. “Venha para aqui”, disse ele. “Não me importo; empoleire-se num de mês ramos. Juntos, ficaremos acordados e alerta.”

E toda a floresta adormeceu, exceto o pássaro marrom e o arbusto alto, que ficaram vigilantes. Perto da meia-noite, uma luz dourada surgiu subitamente no céu, como uma imensa estrela, só que muito mais brilhante. Silenciosamente atravessou o firmamento, e o pássaro e o arbusto observaram-na maravilhados, até que desapareceu nos confins do mundo.

“Você viu aquilo? Como era belo! Que sorte a nossa termos visto!” exclamaram os dois. E o pássaro cantou, e a árvore ergueu bem alto seus ramos despidos, e deram louvor e graças até que as estrelas empalideceram e o Sol irrompeu do mar.

Então, todas a outras criaturas da floresta acordaram maravilhadas, pois por toda a parte, nos ramos do arbusto alto, havia flores carmezins, cintilando como rubis entre as folhas verde-esmeralda. E no galho mais alto estava empoleirado um pássaro com uma plumagem escarlate mais brilhante que o sol nascente.

E o vento apareceu de novo e sussurrou a todas as criaturas: “Vejam, isto é a recompensa da fé.” E disse à árvore “Verde é a cor da vida, vermelho, a do sacrifício. Use-as hoje e sempre, eternamente.” E ao pássaro confidenciou: “O escarlate representa a coragem e a firmeza. Use essa cor como uma insígnia de valor, até o fim dos tempos.”

Assim foi, e assim será. A esse arbusto, chamamos hoje camélia, e ao pássaro, cardeal. O que lhes chamamos, porém, não importa; todas as criaturas da floresta sabem por que é que eles são como são.

Esta história surgiu das neblinas da planície costeira onde nasci. Costumávamos contá-la em torno da lareira, quando se avizinhava o Natal.

Algumas pessoas acham que é apenas uma lenda. Mas há quem creia ser verdade.
 

 

A última árvore de Natal  

©1992 Howard D. Fencl

 

Eu vi um caminhão cheio de árvores de Natal
E cada uma tinha uma estória prá contar,
O motorista colocou-as numa fileira
Esperando que as pessoas as viessem comprar.

Ele pendurou umas luzinhas brilhantes
E uma placa em que se podia ler
"ÁRVORES DE NATAL"
e em vermelho escrevia
"ÁRVORES DE NATAL PARA VENDER"

Ele se serviu de chocolate quente
Numa garrafa térmica fumegante,
E assim começou a nevar
Enquanto uma família estacionava esfuziante.

Uma mãe, um pai, e um menininho
Pararam o carro, rapidinho
Vieram caminhando e começaram a procurar
A perfeita árvore para se decorar.

O garotinho ia na frente,
com seu olhar reluzente, a exclamar:
"Elas têm cheiro de Natal, mamãe!
Sinto cheiro de Natal em todo lugar."

"Vamos comprar uma árvore de quilômetros de altura!
A maior que pudermos encontrar!
Uma árvore que encoste no teto!
Uma que nem dê para carregar!"

"Uma árvore tão grande
Que até mesmo o Papai Noel, quando olhar,
Vai se admirar:
"Esta é a árvore mais bela
Que já vi neste Natal!"

Para achar o pinheirinho perfeito
Procuraram com muita prontidão
Aqui e ali, e até mais de uma vez,
O papai examinou e balançou mais de seis!

"Mamãe, mamãe eu achei, eu achei!
O pinheirinho que mais gostei!
Tem um galhinho quebrado
Mas que pode ficar disfarçado."

"Do anjinho da vovó tiraremos o pó
E lá no alto esperando
Ficará nos guardando.
Poderemos comprá-la? Por favor, por favor!
Pediu com fervor."

"Que tal tomarmos chocolate quente?"
Perguntou o vendedor indulgente.
Enquanto abria a garrafa para aquela gente.
"Isto sim vai aquecer o ambiente!"

Em três pequenos copos de papel
Ele serviu o chocolate espumante,
Enquanto brindavam, esperançosos,
Por mais um Natal esfuziante.

"Você escolheu certinho", disse ele,
"Este é realmente o melhor dos pinheirinhos".
Mas o garotinho estava agoniado,
Pois o preço, para o pai, era muito elevado.

"Feliz Natal"disse o homem,
Amarrando o pinheirinho com um cordão.
"A árvore é sua com uma condição:
Manter uma promessa de Natal."

"Na noite de Natal,
Quando for deitar e rezar,
Prometa no seu coraçãozinho guardar
O encanto do Dia de Natal!"

"Agora corra para casa!
Pois este vento gelado
Suas bochechas têm queimado.
E peça ao papai para com todo cuidado
Enfeitá-la com os ornamentos comprados.
E que, no fim da empreitada,
Mate-lhe a sede, coitada!"

E assim foi com o vento zunindo
Durante toda a noite gelada.
Tendo o homem dado árvore,
Após árvore,
Após árvore...

Para cada pessoa que apareceu,
Brindou com o chocolate espumante
Nos pequenos copos, tão quentes,
Para manter aconchegante o ambiente.

Quem jurou manter a promessa
De guardar no coração o encanto do Natal,
Saiu na noite contente
Cantando canções alegremente.

E quando tudo acabou
Só uma árvore restou:
Mas ninguém estava lá
Para esta árvore adotar.

O homem que vendia árvores, então,
Vestiu seu grosso casacão
E partiu para a floresta
Com a última árvore da festa.

Ele deixou o pinheirinho
Perto de um pequeno riachinho.
Para que as criaturas, sem pousada,
Pudessem fazer dela sua morada.

Ele sorria enquanto tirava os flocos de neve
Que na sua barba encontrava.
Foi aí que de trás de um arbusto
Uma rena quase lhe pregou um susto.

Olhou para ela e sorriu.
Fazendo um carinho na grande criatura,
Pensou com brandura:
"Parece que o Natal chegou novamente!."

"Ainda temos muito chão,
E muitas coisas por fazer!
Vamos para casa, amigo, trabalhar
Neste Natal que vai começar.

Ele olhou para o céu,
Ouviu os sinos a tocar,
E, num pestanejar...
O vendedor já não estava mais lá!


Fim
 

A Pequena Vendedora de Fósforos

 
Hans Christian Andersen

Fonte: http://www.klickeducacao.com.br/2006/materia/21/display/0,5912,IGP-21-100-2385-5430,00.html

"Que frio tão atroz! Caía a neve, e a noite vinha por cima. Era dia de Natal. No meio do frio e da escuridão, uma pobre menina passou pela rua com a cabeça e os pés descobertos.

É verdade que tinha sapatos quando saíra de casa; mas não lhe serviram por muito tempo. Eram uns tênis enormes que sua mãe já havia usado: tão grandes, que a menina os perdeu quando atravessou a rua correndo, para que as carruagens que iam em direções opostas não lhe atropelassem.

A menina caminhava, pois, com os pezinhos descalços, que estavam vermelhos e azuis de frio. Levava no avental algumas dúzias de caixas de fósforos e tinha na mão uma delas como amostra. Era um péssimo dia: nenhum comprador havia aparecido, e, por conseqüência, a menina não havia ganho nem um centavo. Tinha muita fome, muito frio e um aspecto miserável. Pobre menina! Os flocos de neve caíam sobre seus longos cabelos loiros, que se esparramavam em lindos caracóis sobre o pescoço; porém, não pensava nos seus cabelos. Via a agitação das luzes através das janelas; sentia o cheiro dos assados por todas as partes. Era dia de Natal, e nesta festa pensava a infeliz menina.

Sentou-se em uma pracinha, e se acomodou em um cantinho entre duas casas. O frio se apoderava dela, e inchava seus membros; mas não se atrevia a aparecer em sua casa; voltava com todos os fósforos e sem nenhuma moeda. Sua madrasta a maltrataria, e, além disso, na sua casa também fazia muito frio. Viviam debaixo do telhado, a casa não tinha teto, e o vento ali soprava com fúria, mesmo que as aberturas maiores haviam sido cobertas com palha e trapos velhos. Suas mãozinhas estavam quase duras de frio. Ah! Quanto prazer lhe causaria esquentar-se com um fósforo! Se ela se atrevesse a tirar só um da caixa, riscaria na parede e aqueceria os dedos! Tirou um! Rich! Como iluminava e como esquentava! Tinha uma chama clara e quente, como de uma velinha, quando a rodeou com sua mão. Que luz tão bonita! A menina acreditava que estava sentada em uma chaminé de ferro, enfeitada com bolas e coberta com uma capa de latão reluzente. Luzia o fogo ali de uma forma tão linda! Esquentava tão bem!

Mas tudo acaba no mundo. A menina estendeu seus pezinhos para esquentá-los também, mas a chama se apagou: não havia nada mais em sua mão além de um pedacinho de fósforo. Riscou outro, que acendeu e brilhou como o primeiro; e ali onde a luz caiu sobre a parede, fez-se tão transparente como uma gaze. A menina imaginou ver um salão, onde a mesa estava coberta por uma toalha branca resplandecente com finas porcelanas, e sobre a qual um peru assado e recheado de trufas exalava um cheiro delicioso. Oh, surpresa! Oh, felicidade! Logo teve a ilusão de que a ave saltava de seu prato para o chão, com o garfo e a faca cravados no peito, e rodava até chegar a seus pezinhos. Mas o segundo fósforo apagou-se, e ela não viu diante de si nada mais que a parede impenetrável e fria.

Acendeu um novo fósforo. Acreditou, então, que estava sentada perto de um magnífico nascimento: era mais bonito e maior que todos os que havia visto aqueles dias nas vitrines dos mais ricos comércios. Mil luzes ardiam nas arvorezinhas; os pastores e pastoras pareciam começar a sorrir para a menina. Esta, embelezada, levantou então as duas mãos, e o fósforo se apagou. Todas as luzes do nascimento se foram, e ela compreendeu, então, que não eram nada além de estrelas. Uma delas passou traçando uma linha de fogo no céu.

Isto quer dizer que alguém morreu — pensou a menina; porque sua vovozinha, que era a única que havia sido boa com ela, mas que já não estava viva, havia lhe dito muitas vezes: "Quando cai uma estrela, é que uma alma sobe para o trono de Deus".

A menina ainda riscou outro fósforo na parede, e imaginou ver uma grande luz, no meio da qual estava sua avó em pé, e com um aspecto sublime e radiante.

— Vovozinha! — gritou a menina. — Leve-me com você! Quando o fósforo se apagar, eu sei bem que não lhe verei mais! Você desaparecerá como a chaminé de ferro, como o peru assado e como o formoso nascimento!

Depois se atreveu a riscar o resto da caixa, porque queria conservar a ilusão de que via sua avó, e os fósforos lhe abriram uma claridade vivíssima. Nunca a avó lhe havia parecido tão grande nem tão bonita. Pegou a menina nos braços, e as duas subiram no meio da luz até um lugar tão alto, que ali não fazia frio, nem se sentia fome, nem tristeza: até o trono de Deus.

Quando raiou o dia seguinte, a menina continuava sentada entre as duas casas, com as bochechas vermelhas e um sorriso nos lábios. Morta, morta de frio na noite de Natal! O sol iluminou aquele terno ser, sentado ali com as caixas de fósforos, das quais uma havia sido riscada por completo.

— Queria esquentar-se, a pobrezinha! — disse alguém.

Mas ninguém podia saber as coisas lindas que havia visto, nem em meio de que esplendor havia entrado com sua idosa avó no reino dos céus."

 

NATAL

Olavo Bilac

Jesus nasceu ! Na abóbada infinita

Soam cânticos vivos de alegria;

E toda a vida universal palpita

Dentro daquela pobre estrebaria ...

 

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas

No berço humilde em que nasceu Jesus ...

Mas os pobres trouxeram oferendas

Para quem tinha de morrer na Cruz.

 

Sobre a palha, risonho, e iluminado

Pelo luar dos olhos de Maria,

Vede o Menino-Deus, que está cercado

Dos animais da pobre estrebaria.

 

Não nasceu entre pompas reluzentes;

Na humildade e na paz deste lugar,

Assim que abriu os olhos inocentes,

Foi para os pobres seu primeiros olhar.

 

No entanto, os reis da terra, pecadores,

Seguindo a estrela que ao presépio os guia.

Vêem cobrir de perfumes e de flores

O chão daquela pobre estrebaria.

 

Sobrem hinos de amor ao céu profundo;

Homens, Jesus nasceu ! Natal ! Natal !

Sobre esta palha está quem salva o mundo,

Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal !

 

Natal ! Natal ! Em toda Natureza

Há sorrisos e cantos, neste dia ...

Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,

Nascido numa pobre estrebaria !

 

 

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