ALMANAQUE PRIDIE KALENDAS APRESENTA

 


 

 

 


A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MAQUINA DE ESCREVER

(Um tributo ao padre Francisco João de Azevedo)


Como em todas as grandes invenções, e, sem dúvida a invenção da máquina de escrever foi uma delas, inúmeros países reivindicam tal privilégio. Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Itália, para citar os mais evidentes, procuram, como se diz popularmente

 "Puxar a sardinha para a sua brasa".

Mas afinal, quem inventou a máquina de escrever ? Sem qualquer partidarismo patriótico ou lampejos xenofóbicos, o Pridie Kalendas, também não querendo ser o dono da verdade, foi procurar informações básicas e disponíveis, para de uma forma prática e objetiva,divulgá-las,  visando fortalecer os conhecimento, porventura já adquiridos,  dos nossos prezados visitantes.

Para alcance desses objetivos, depois de uma pesquisa intensa, inclusive na WEB, escolhemos uma obra didática antiga, já na sua sexta edição, em 1958, que serviu de balizamento para o nosso trabalho:

EDULO PENAFIEL

Mecanografia

para o

Primeiro ano do curso comercial-técnico, cursos de estatística, administração e secretariado

6 Edição (refundida e melhorada)

COMPANHIA EDITORA NACIONAL

SÃO PAULO

 

CAPÍTULO VII- MÁQUINAS DE ESCREVER

Se a máxima já popularizada "Antiguidade é Posto", prevalecer, tudo indica que Henry Mills, em 1714, ao construir um aparelho com características semelhantes ao que posteriormente se convencionou chamar de máquina de escrever, poderá ser o precursor desse invento.

Todavia, os registros parecem refletir que pouco se conhece a respeito desse feito, ou para ser mais preciso, existe um documento escrito, uma cópia da patente concedida ao inventor, pela rainha Ana Stuart [1665 – 1714], que declarou:

"uma máquina artificial ou método de imprimir ou transcrever letras, uma atrás das outras, como na escrita manual, pela qual todas as letras podem ser reproduzidas no papel ou pergaminho, tão nítidas e exatas que não se distinguem das impressas"

Segue, o texto original em inglês:   

"An artificial machine or method for the impressing or transcribing of letters singly or progressively one after another, as in writing, whereby all writing whatever may be engrossed in paper or parchment so neat and exact as not to be distinguished from print

1714 AD
The First English Typewriter Patent

Entretanto, o modelo de Henry Mill, nunca saiu do projeto, ou seja, nunca foi construído; E, sabe-se de outra tentativa ainda no século dezoito para a construção de uma máquina escrevente, por Frederico de Knaus, em Viena. Também dessa máquina não ficaram modelos, conhecendo-se sua existência apenas por uma descrição datada de 1780, que consta ter surgido em 1753.

Apenas como registro, aliás louvável por parte do inventor italiano, Pelegrino Turri, que em 1808, teria construído uma máquina, para a filha de um amigo que era cega, pudesse aprender a escrever. A bem da verdade, porém, de uma forma mais evidente, esses fatos históricos não se confirmam.

A primeira patente norte-americana consta ser de William Austin Burt, de Detroit (1829), cujo conteúdo foi destruído pelo incêndio do Escritório de Patentes de Washington, em 1836. 

THE GREAT PATENT FIRE OF 1836

O incêndio daquele ano bissexto, ocorrido numa quinta feira,  em 15 de dezembro de 1836, praticamente destruiu todas as patentes depositadas; consta que aproximadamente 2.845 patentes foram restauradas, sendo que também em uma estimativa, supõe-se que perto de 1840 delas não tiveram as suas originais características refeitas. Por sorte, a família de Burt, tinha uma cópia que permitiu reconstruir a máquina patenteada, tendo sido exibida na exposição de Chicago de 1893.

Pasmem os Amigos, o aparato foi considerado como apenas um brinquedo, sem qualquer utilidade prática.

Neste ponto da narrativa, gostaria de alertar vocês, para o seguinte; como já dissemos, há algumas reivindicações sobre a paternidade da máquina de escrever, inclusive daqueles que advogam ser o nosso padre Francisco João de Azevedo o  seu legitimo inventor (trataremos esse assunto, de forma mais analítica nas linhas subseqüentes). 

Na nossa opinião, independentemente das características secundárias que foram aplicadas nas máquinas de escrever posteriormente, uma foi fundamental , a convergência de varetas com os seus respectivos tipos em uma das extremidades, posicionadas no seu momento inercial, em um semi-círculo, convergendo para um ponto central, toda vez que fossem acionadas. Os fatos parecem refletir que o francês Xavier Progin, de Marselha, em 1833, apresentou o seu invento, em que usou barras de tipo,  sendo uma alavanca para cada letra.

 

Em 1843, o norte-americano Charles Thurber, de Worcester, Massachusetts, patenteou uma máquina que utilizava um jogo de barras de tipos situados em redor de uma roda de latão; esta movia-se num eixo central e o tipo, com tinta, atingia o papel, colocado sob a roda. Fator muito importante a ser registrado, é que, pela primeira vez, havia um movimento longitudinal do carro, o qual, praticamente foi utilizado em quase todas as máquinas de escrever que se seguiram. Infelizmente, porém, a lentidão do sistema não possibilitou maior proliferação desse modelo de máquina de escrever.

Em 1845, Thurber efetuou algumas modificações em seu projeto, com objetivo de ajudar na escrita dos cegos, e, diga-se de passagem, que no ano antecedente, Littledale fez também, para logo a seguir, em 1849, Pierre Focault também tentar.

A partir de 1850, principalmente nos Estados Unidos e Europa, muitas foram as máquinas de escrever que surgiram, com especial destaque para: Alfred Ely Beach, de Nova York (1856); do Dr. Samuel W. Francis, também de NY, em 1857 e de John Pratt, do Alabama, residindo na época em Londres (1866).

 Entretanto, foi em 1868, que surgiu a primeira máquina de escrever prática, e, o melhor, podia ser fabricada em escala industrial, resultado dos trabalhos de três inventores de Milwakee, Estado de Wisconsin, nos E.U.A.

Carlos Glidden:

Filho do proprietário de uma loja de ferragens

Christopher Lathan Sholes:

tipógrafo

Samuel W. Soule:

tipógrafo

"Be it known that we, C. Latham Sholes, Carlos Glidden, and Samuel W. Soule, of the city of Milwaukee, and county of Milwaukee and State of Wisconsin, have invented new and useful Improvements in Type-Writing Machines; and we do hereby declare that the following is a full, clear, and exact description of the invention, which will enable those skilled in the art to make and use the same, reference being had to the accompanying drawings, forming part of this specification."...

O invento foi chamado de TYPE-WRITER, sendo que o hifen foi descartado anos mais tarde,  passando a ser conhecida como TYPEWRITER

FONTE:

Dos três jovens o mais entusiasmado era Sholes. Contudo por falta de conhecimentos técnicos chamou para auxiliá-lo Mathias Schwalbach, um mecânico prático. O modêlo construido, em madeira, apresentava um grave defeito de as letras sairem com bastante desalinho. Sholes resolveu, então, pedir ajuda ao inventor Thomas Edison, já muito badalado pelas suas invenções, o qual construiu em suas oficinas uma cópia em metal da máquina que lhe fôra enviada, limitando a isso sua colaboração, tendo julgado o aparato pouco útil, pois que, mesmo tendo conseguido o alinhamento, uma pessoa normal escrevia  com uma pena três vezes mais rápido.

JUNTAMOS UM ARTIGO ESPECIAL COLETADO DA REVISTA

SELEÇÕES DO READER'S DIGEST DE JULHO DE 1954

O Gênio Incandescente (Thomas Alva Edison)

Condensado de um livro a sair - C.B.WALL

"Mesmo nesses primeiros tempos, Edison já andava às voltas com 45 dos seus inventos. Vinha ele trabalhando com afinco numa máquina que esperava que viesse a transmitir as letras do alfabeto pelos fios telegráficos, quando soube que em Milwaukee, Estado de Wisconsin, Christopher Sholes estava fazendo experiências com uma máquina de madeira chamada "máquina de escrever". Acreditando que isso pudesse ajudar no telégrafo automático, Edison convidou Sholes para levar o seu modelo a Newark e fez muitas sugestões para o aperfeiçoamento da primeira máquina de escrever.

Embora Samuel Morse tenha inventado o telégrafo, é fora de dúvida que Edison o revolucionou tão completamente que o próprio Morse mal o reconheceria. Edison não só o inventou o duplex (duas mensagens, cada uma num sentido, ao mesmo tempo e pelo mesmo fio) e o diplex (duas mensagens na mesma direção) mas também salvou a Western Union inventando um método de transmissão que não estava coberto pelas patentes em vigor,"


Regístros importantes,  confirmando datas para a invenção da máquina de escrever

1868 writing machine first called a 'Type-Writer

Media Timeline

1867 American inventor Christopher Latham Scholes builds the first practical typewriter. In 1873 Remington begins to manufacture the machines in large numbers. By 1886 there are more than 50,000 machines in use.

Geofffrey Nunberg- Timeline

1867- In US, Sholes builds a functional typewriter
1868- Writing machine is called a "Type-Writer"; so is the typist

A BRIEF HISTORY OF COMMUNICATION

Posteriormente, Samuel W. Soule não continuou no projeto; não temos conhecimento qual foi o ajuste feito entre os três inventores. Glidden e Sholes, prosseguiram com tamanha intensidade que em cinco anos chegaram a 30 modelos diferentes.

Mesmo com tal diversidade nos modelos desenvolvidos, ainda não existia uma máquina que despertasse um real interesse prático e, pudesse ser industrializada com total segurança. De repente, como que por encanto, por verdadeiro milagre, tudo parece ter mudado; o projeto, desenvolvido de forma totalmente diferente, com princípios básicos reformulados, se tornou tão eficiente que, provavelmente,  por falta de capital de giro, os dois sócios tiveram que vender os seus direitos a um investidor de nome James Densmore, que em 1873, negociou os direitos com a firma E. Remington & Sons, fabricantes de armas e máquinas de costura, de Ilion, Nova York.

Consta que,  uma das primeiras providencias dos novos proprietários, foi contratar um "artist-mechanic", chamado William K. Jenne; uma das introduções foi a adaptação de um pedal para o avanço do papel; no ano seguinte, foi posta no mercado e tornou-se conhecida pelo nome do fabricante: Remington.

Nesse ínterim, peço aos Amigos que permitam divagarmos um pouco e, quem sabe, procurar interpretar com mais compreensão qual foi o motivo que gerou dúvidas nesta etapa do processo inventivo e, aonde entra o nosso padre Azevedo.

De uma forma absolutamente conclusiva, sem hesitarem nem um pouco, a fábrica Remington desembolsou a expressiva quantia para a época, de 12.000 dolares; de onde veio essa inesperada fonte inspirativa e visionária ?

Leve-se em consideração também o fato de que a primeira máquina de escrever patenteada de Sholes, de 1867, é completamente diferente da lançada em 1874, e nota-se, entre a primeira e a última, um enorme avanço técnico.

Depoimento dos mais expressivos foi dado pelo saudoso Dr.José Carlos de Ataliba Nogueira [1901 – 1983], no seu livro “Um inventor brasileiro”, de 1934.

"É uma coincidência deveras estranha que os americanos hajam abandonado de uma hora para outra os modelos sobre os quais vinham trabalhando há tanto tempo, justamente na época em que retornavam à América os emigrados de Recife. Têm tantos pontos de semelhança as máquinas de Gliden, Sholes e Soule com a do padre Azevedo, mesmo nos seus defeitos (figura 33 e 34), que não se pode deixar de pensar que esta última tenha sido a origem daquela."

Figura 33

Figura 34 (REMINGTON- Número 1 -1873)

AFINAL, QUEM ERA O PADRE FRANCISCO JOÃO DE AZEVEDO ?

(Texto do livro Mecanografia de Edulo Penafiel)

"Filho de um piloto do mesmo nome, o padre Francisco João de Azevedo nasceu na cidade da Paraiba em 1814. Cedo ficou órfão e auxiliado por amigos de seu pai foi mandado estudar no seminário do Recife, onde tomou ordens religiosas em 1838. Dotado de grande inteligência e amor aos estudos destacou-se desde logo como professor de desenho e geometria.

Mais tarde, tendo sido o padre Azevedo designado para dar aulas no Arsenal de Guerra de Pernambuco, sua inclinação natural para a mecânica atraiu-o para as oficinas onde passou a empregar quase todo seu tempo.

Sabe-se por carta de seu próprio punho, que o sábio sacerdote antes de pensar na máquina de escrever dedicava-se a aperfeiçoar dois inventos cujos pormenores infelizmente de todo se perderam.

O primeiro era um veículo terrestre movimentado inteiramente pela força do vento e que se destinava a servir de transporte entre Olinda e Recife; o segundo era um engenho para aproveitar o movimento das ondas do mar, aplicando-o na própria marcha do navio. Na época em que viveu o padre Azevedo o atraso material do Brasil era ainda muito grande para que alguém mais se interessasse por tais invenções, restando a esperança de que algum feliz acaso nos venha proporcionar detalhes das invenções do nosso patrício.

Por serem de grande curiosidade reproduzimos trechos da carta que ele escreveu a um jornal de Recife, em 1875, a propósito de seu veículo:

"O acabamento e a timidez da minha índole, a falta de meios, e o retiro em que vivo, não me facilitam o acesso aos gabinetes onde se fabricam as reputações e se dá diploma de suficiência. Daí vem que as minhas pobres invenções definhem, morram crestadas pela indiferença e pela falta de jeito"

...............................................

 

"O motor a empregar era o vento e os carros deviam mover-se em todos os sentidos, ainda mesmo em direção oposta ao vento, podendo mover-se em sentido circular sem que em nenhum dos casos diminuísse a velocidade primitiva".

Azevedo termina a carta oferecendo sua invenção ao público, sem interesse algum de sua parte, oferecimento que lastimavelmente ninguém aproveitou.

 

ARGUMENTOS PERSUASIVOS E FAVORÁVEIS AO PADRE AZEVEDO 

Sem assumirmos qualquer partidarismo, apenas alicerçados  em relatos, os fatos parecem refletir que houve uma grande usurpação aos devidos méritos do padre Azevedo, senão vejamos:

 

PRIMEIRO RELATO (DO LIVRO- MECANOGRAFIA ACIMA CITADO)

"Por um catálogo da "Exposição dos Produtos Naturais, Agrícola e Industriais das Províncias de Pernambuco, Alagoas, Parahyba, Rio Grande do Norte e Ceará", realizada em 1861, conseguimos saber os seguintes dados sobre a máquina de escrever do padre Azevedo:

"Representa e tem configuração de uma espécie de piano pequenino, com um teclado contendo quatorze teclas, oito à direita e oito à esquerda (sic).

Logo que se comprime uma dessas teclas que representam pequenas alavancas, ergue-se na extremidade dela uma delgada haste que tem na ponta uma letra esculpida em metal e em alto relevo, a qual vai encaixar-se em outra igual esculpida em baixo relevo, em uma chapa metálica fixa em cima destas hastes".

A exposição pernambucana em que esta máquina figurou era preparatória a um certame no Rio de Janeiro, que se inaugurou em 2 de dezembro de 1861, onde ela recebeu uma das nove medalhas de ouro distribuídas entre um total de 1.136 expositores, sinal evidente de seu mérito. Projetava-se enviar a nova invenção à exposição de Londres em 1862, primeira feira internacional em que o Brasil figuraria. Na época do embarque, porém, deixaram-na ficas, esquecida.

As crônicas de Pernambuco relatam que em 1866 chegaram a Recife diversas famílias norte americanas, expatriadas após a derrota dos escravagistas dos estados do Sul, que procuravam estabelecer em Pernambuco um núcleo colonial. 

Naquele mesmo ano de 1866 (A) na revista americana "Scientific American"apareceu um artigo intitulado "Who Will invent a writing machine ? ", provando que naquele ano não existia ainda a máquina de escrever na América do Norte, pois tal fato não poderia ser desconhecido de uma revista especializada, como aquela, em que no citado artigo justamente procurava animar seus compatriotas a procederem às tentativas necessárias a sua construção. 

(A) Vide nosso comentário adiante.

SEGUNDO RELATO

Um bom material para leitura em INVENTA BRASIL

TERCEIRO RELATO

Recomendamos visitarem a página de Rodrigo Moura, um pesquisador sobre:

 Inventores Brasileiros Injustiçados 

(A) A bem da verdade, dos três relatos, o "Pridie Kalendas" apenas retifica a data em que foi publicada no "Scientific American" ao invés de 1866, 5/julho/1862,sábado,  senão vejamos: 

Índice parcial (original) enfatizando o artigo que incentiva a invenção da máquina de escrever.

THE SHOLES (QWERTY) KEYBOARD

EL TECLADO QWERTY Y SUS DEFECTOS

TEN MOST WANTED TYPEWRITER

VIRTUAL MUSEUM ANTIQUE TYPEWRITER GALLERY

STORIA DELLO SVILUPPO DELLE MACCHINE UTENSILI IN ITALIA

The Earliest Writing Machines

CONCLUSÃO

Além, evidentemente, do registro histórico e da divulgação dos principais fatos que ocorreram na invenção e desenvolvimento da máquina de escrever, estamos prestando uma homenagem ao nosso inventor, o padre Francisco João de Azevedo que, sem dúvida alguma, contribuiu para que o projeto saísse da prancheta e tomasse vulto de uma forma materializada.

Também, por faltarem elementos mais conclusivos  para uma  análise imparcial, não questionamos se o padre foi ou não o principal inventor formal da máquina de escrever, o que temos certeza é que a máquina realmente existiu, funcionava, foi exposta ao público, ganhou medalhas, e, o mais importante, em dezembro de 1861, portanto antes que  Samuel W. Soule ee seus dois parceiros, em 1868, recebessem a formalização da patente nos Estados Unidos.

Enfim, para o "Pridie Kalendas", o padre Francisco João de Azevedo, mais do que nunca, continua sendo um dos imortais desse nosso imenso e querido Brasil.

 


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