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EX LIBRIS

Ex libris- Locução latina que denota dentre que livros determinado livro foi tirado, uma vez acrescido de "de Fulano de Tal" ou simplesmente do nome do possuidor, geralmente acompanhado de desenho que ainda mais identifica o possuidor; equivale a dizer "Da biblioteca de".

O hifen só se justifica quando a expressão é usada substantivamente - e este é o seu maior emprego : O meu ex-libris foi feito por um verdadeiro artista.

Fonte:- Dicionário de Questões Vernáculas- Napoleão Mendes de Almeida- Editora "Caminho Suave" Limitada.   

Outras opiniões

A dúvida sobre a colocação ou não do hífen fica sanada por Carlos Pastorino, citado por Manuel Esteves, quando, no "Boletim da Sociedade de Amadores Brasileiros de Ex Libris" afirma que entre os dois vocábulos não há hífen por serem duas palavras latinas distintas: "ex" (= de, dos) e "libris" (=livros). Se houvesse o hífen, o sentido ficaria alterado como nas expressões ex-alunos, ex-diretor, isto é, "não mais alunos" ou "que já foi diretor", daí "ex- -libris" viria a ser "não são mais livros". E o mais importante: em latim não existe hífen. Em alguns países esta expressão se aculturou, como no Oriente.


« (...) Dado que existem certas disparidades quanto á forma de escrever algumas das palavras comumente usadas na modalidade e se faz grande confusão de acepções e definições entre elas (...)

Quando em Portugal se começou a usar marcas bibliotecárias, nelas não figurava a palavra «ex-líbris», só muito mais tarde é que tal sucedeu, na altura em que se pretendeu substituir as expressões, bem portuguesas, «Da Biblioteca de» e »Da Livraria de» pela locução latina «Ex libris» (sem hífen), cuja tradução literal é: «Dos livros», mas que na realidade significa «Dos livros de», tal como os Italianos assim o entendem e é extensivo à nossa língua (la cui dizione latina, tradotta letteralmente, vuol dire «dai libri di»). Porém, devido à circunstancia de muita gente não se ter debruçado atentamente sobre o assunto, começaram a ligar com o hífen os dois elementos que compõem a expressão, daí resultando o emprego simultâneo das duas formas gráficas (com e sem hífen). (...)

Na realidade, só existem duas formas corretas de escrever: ou ex libris (sem hífen) em latim ou ex-líbris (com hífen e com acento agudo no primeiro «i») em português. Qualquer outra variante é autêntico erro gráfico (... ) À locução latina, ninguém pode alterar a grafia. Quanto ao termo português, diz-nos o Prof. Doutor Francisco da Luz Rebelo Gonçalves [nota: in Boletim da Academia Portuguesa de Ex-líbris, nº 3]: 'Conquanto se trate originariamente de uma expressão latina, a verdade é que essa expressão se aportuguesou, passou a ser palavrar do nosso léxico e, como tal, não pode deixar de se regular pelas normas de acentuação gráfica que regem os vocábulos portugueses ... Tem de levar acento agudo na penúltima sílaba do segundo elemento, em virtude de este elemento ser paroxítono e terminar em is. (...)

[Extracto do "Manual de Ex-librística", de Fausto Moreira Rato, INCM, 1978]

 Fonte do texto acima e da figura abaixo

O ex libris era nos primórdios, basicamente um emblema ou marca de bibliotecas, com características públicas ou particulares, que evidenciava a posse efetiva dos exemplares , e, geralmente eram colocadas no verso da encadernação; grosso modo, no início, com os dizeres ex bibliotheca e ex dono,  substituíam frases, assinaturas ou mesmo carimbos.

Inúmeros ex libris apresentam apenas uma ilustração, ou como queiram, uma espécie de selo; porém, outros tem ainda uma espécie de "divisa"- frase ou mesmo pensamentos específicos.

Consta que sua existência remonta ao faraó egípcio Amenófis IV, uma espécie de ex libris em 1400 a.C., numa caixa de papiros, hoje guardada no British Museum, em Londres.

Para ilustração, em castelhano, disponibilizamos uma excelente biografia desse personagem:

"El sucesor de Amenofis III será su hijo Amenofis IV. Su reinado ha pasado a la historia envuelto en un halo de controversia debido a las transformaciones culturales y religiosas que se llevan a cabo. El reinado de Amenofis IV duró apenas veinte años, manifestándose en él una verdadera revolución religiosa al sustituir el culto de Amón por el de Atón. La religión de Amón era demasiado exclusivista de Egipto en un momento de máxima expansión territorial en Asia y de unión interracial. Con el fin de dotar al crisol de pueblos que vivían en sus fronteras de un dios único y valido para todos, Amenofis eligió el disco solar como el dios de una nueva religión, llamándole Atón. Bien es cierto que ya en época de sus antepasados Tutmosis IV y Amenofis III se había empezado a desarrollar el culto a Atón pero Amenofis IV lo institucionaliza. Esta revolución religiosa tiene también ciertas causas políticas ya que el clero de Amón había alcanzado el techo del poder político. Por esta razón, Amenofis abandonó Tebas y creó una nueva capital en la zona central de Egipto llamada Akhet-Atón - la actual Tell el-Amarna -, cambiando su propio nombre por el de Akhenatón. La nueva religión era de tendencia monoteísta y francamente simple. Atón estaba presente en todas las cosas y se le hacían ofrendas directamente, en un patio descubierto. El rey era el pontífice supremo de Atón y su "profeta" ya que sólo él conocía la doctrina, la interpretaba y la transmitía a los discípulos. El amor a la naturaleza, la alegría de vivir y el pacifismo son las características más representativas de la nueva fe. Desde este momento, Akhenatón se dedicó a perseguir la antigua religión de Amón, borrando su nombre de las cartelas, suprimiéndose el culto de los demás dioses. El final de este "cisma" parece que llegó por influencia de la reina madre Tiy, quien convenció a su hijo para alcanzar una reconciliación con el clero de Amón. Esto provocó la separación de la reina Nefertiti, una de las más firmes seguidoras del nuevo culto. Para calmar los ánimos, Akhenatón nombró corregente a su yerno Semenkhkare, falleciendo al poco tiempo. En cuanto a la política exterior del rey pacifista, nos encontramos con un grave momento del imperio asiático. Los hititas estaban configurando una gran alianza contra Egipto y ampliaban sus territorios sin encontrar apenas resistencia. Los aliados egipcios solicitaban su ayuda infructuosamente mientras los hititas tomaban buena parte de Siria y Palestina. Egipto veía como su imperio pasaba a manos hititas, quienes se convertían en soberanos de la zona norte de Asia. La respuesta vendrá de manos del general Horemheb quien realizó una campaña en Palestina con éxito, por lo que la zona meridional de Asia permanecía en poder de Egipto. La crisis vivida en tiempos de Akhenatón dejará una larga secuela en las tierras egipcias, recuperando el papel preponderante en la política internacional en tiempos de Ramsés II."

Fonte: -

Consta, também, que o imperador Frederico Barbarroxa (1188) e o rei Jorge da Boêmia (século XV) o usaram.

Aliás, é este século considerado o marco inicial, pois o mais autêntico ex libris teria pertencido a João de Krabensperg.

A bem da verdade, nós do "Pridie Kalendas" , mediante inúmeras pesquisas, não conseguimos apurar com segurança a verdadeira antiguidade do ex libris; apuramos sim, existir várias opiniões, como por exemplo, os que  dizem ser o primeiro, o de Hildebrand Brandenburg de Biberach, uma gravura em madeira, representando um anjo a segurar um brasão de armas e colorido à mão por volta de 1470. Outros afirmam ser o mais antigo o do rei da Boemia, o ex libris armoriado de Georgis de Podebrady, falecido em 1471.

Deixando de lado o conceito de antiguidade, provavelmente com mais autenticidade e objetividade, disponibilizamos abaixo, talvez em dos mais importantes ex libris, confeccionado na Alemanha, por volta de 1500.

This and the following ex-libris are two of the six which can definitely be ascribed to Dürer s hand. Pirkheimer (Eichstadt, 1470- 1530) was counsellor to the Emperor Charles V, author and bibliophile and a friend of Dürer. It was made before 1503. The text sibi et amicis means belonging to him and his friends , a reminder of the pleasure of sharing one s treasures with friends, and also of the rarity and value of books at that time. Leiningen (op. cit.) considers the Pirkheimer ex-libris perhaps the most interesting of all German bookplates . Formerly in the Franze collection, Buenos Aires.

Fonte com imagem ampliada e mais detalhes

Ampliando a reportagem , extraída do "Tesouro da Juventude", O Livro dos Porquês,  editado em 1954, volume 17, página 324, no Brasil o mais antigo é o de Manuel de Abreu Guimarães, de Sabará (Minas Gerais). É gravado a buril, instrumento de aço talhado em bisel para uso de gravadores. Como adendo expositivo, sem maiores comentários, apenas como ilustrações, foram disponibilizados dois ex libris, um do escritor Joaquim Nabuco e o outro do Dr. Osvaldo Cruz, digitalizada pelo "Pridie Kalendas" , como segue:

Figura digitalizada pelo "Pridie Kalendas" Figura digitalizada pelo "Pridie Kalendas"

    "Devido à dificuldade de impressão, nos exemplares bibliográficos, os ex libris passaram a ser reproduzidos em um pequeno retângulo de papel que depois seria colado no livro, sendo obrigatória a colocação, nos mesmos, da locução latina ex libris que significa "dos livros", "dentre os livros de..."
Um pequeno detalhe na confecção do ex libris o transforma numa verdadeira obra de arte e mania para os colecionadores: ilustrações feitas por artistas renomados como Dürer e Escher. Esta arte da sutileza entrou em declínio, principalmente por causa da automação das técnicas gráficas.
Com o desenvolvimento da imprensa e da arte da Gravura (Vide técnicas) , o ex libris, que antes era desenhado na capa dos manuscritos, passou a ser impresso por meio de técnicas como a tipografia, a xilogravura e a gravura em metal.
Estes verdadeiros tesouros da inteligência humana contribuíram para a formação de uma arte inimitável, acompanhando as tendências artísticas de cada época. Além dos aspectos estéticos e históricos, o ex libris pode revelar muito da Sociologia, Antropologia, Psicologia etc. de seu tempo."

Fonte:   Ex libris, pequeno objeto do desejo

Hoje em dia há colecionadores de ex libris, como os há, por exemplo, de selos. Sociedade ex libristas espalham-se por toda parte, como as sociedades filatélicas.

O primeiro colecionador brasileiro foi o Barão do Rio Branco, cujo ex libris , desenhado por ele e gravado pelo artista francês Agry,está ao lado.

Uma site que os nossos Amigos, visitantes do "Pridie Kalendas", devem acessar,contém sugestivamente os  seguintes dizeres:

Colecionar é uma arte. É a arte de perpetuar as coisas, de prolongar e dar maior sentido de vida espiritual a tudo aquilo que por vezes aos outros não tem valor algum. . .

Louvo sempre os colecionadores. Ha os que juntam objetos, outros ha que reúnem legendas, fantasias, sonhos...

Zsnaldo Teizeire.

Sem dúvida, é uma fonte de consulta indispensável; para os colecionadores, recomendamos o atalho

que, possibilitará conhecer ex libris como, por exemplo, o do conde Francisco Matarazzo (abaixo), e, em um menu suspenso, uma impressionante seqüência de 7 séries, com inúmeros exemplares:

  Para os aficionados, um espaço praticamente obrigatório é o de AUGUSTO MOURA FILHO, local em que encontraremos preciosidades como as abaixo disponibilizadas:

O que por aqui se lia sem a Biblioteca dos Reis

Fonte: O Estado de São Paulo- Caderno 2- 

Ensaio acompanha a grande chegada de livros ao Brasil, o que só foi possível com o estabelecimento da Corte portuguesa no Rio, em 1808 

SÉRGIO AUGUSTO
Especial para o Estado

Foi preciso que a Corte portuguesa se estabelecesse no Rio de Janeiro, em 1808, para que os brasileiros pudessem, finalmente, dispor de livros a mancheias e desfrutar do direito de imprimi-los sem atravessar o Atlântico. Até então, possuir e fazer uso de uma prensa, na terra dos papagaios, era crime ignominioso. Os tomos, folhetos e gazetas que nestas bandas eram manuseados vinham todos da Europa, vale dizer de Lisboa, filtrados pela censura régia e inquisitorial. O refrigério cultural com que Napoleão, indiretamente, nos premiou acaba de ser reconstituído em detalhes no primoroso ensaio A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (Cia. das Letras, 554 págs., R$ 44,50), que Lilia Moritz Schwarcz escreveu com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa. A biblioteca dos reis de Portugal, embrião da nossa Biblioteca Nacional, foi trazida até o Brasil em três viagens sucessivas, e sua odisséia tem como ponto de partida não o assédio de Napoleão ao império luso, mas o terremoto que arrasou Lisboa em 1755.
Faz bem à alma saber que o monarca que de longe nos governava tinha tanto apreço pelos livros. A família real poderia ter fugido apenas com suas riquezas mais valiosas, do ponto de vista material, e no entanto o rei cuidou para que seu maior tesouro espiritual lhe continuasse fazendo companhia na nova corte. Esse foi o aspecto positivo da história. O negativo - terremoto e invasão francesa à parte - tem como epicentro o obscurantismo dominante em Portugal desde que seu primeiro regente dobrou-se, incondicionalmente, ao poder da Igreja.
Fomos descobertos em 1500 e 36 anos depois estabeleceu-se em Portugal a Censura inquisitorial. Proibía-se tudo que desagradasse ao clero e à corte.
Três poderes, agindo independentemente, com regras e princípios particulares, controlavam a circulação de idéias no jardim-à-beira-mar-plantado e nas colônias ultramarinas: o Santo Ofício vaticano, o Ordinário e o Desembargo do Paço. Para ser liberada, qualquer obra tinha de trazer impressos no rodapé os dizeres "Com todas as licenças necessárias". Em 1551, o Infante D. Henrique, Cardeal Inquisidor Geral, facilitou a repressão, instituindo o Rol dos Livros Defesos. O Infante antecipou-se, pois, ao Index Librorum Prohibitorum, do Vaticano, que só surgiria 30 anos mais tarde.
Durou até 1768 esse sistema tripartite de censura, unificado e secularizado pelo Marquês de Pombal, criador da Real Mesa Censória, dividida ao meio entre catões eclesiásticos e leigos, todos indicados pelo rei. Depois da queda do marquês, D. Maria I entronizou, em 1787, a Comissão Geral para o Exame e a Censura dos Livros, que ainda estava em vigor quando a Biblioteca dos Reis aportou no cais do Rio de Janeiro. Tão intensa era a volúpia censória da corte portuguesa que nem quando a Inquisição arquivou seu garrote, em 1821, a censura, já então luso-brasileira, topou sair de cena.
Predominavam no índex inúmeros autores franceses, como Voltaire (que mais de uma vez gozou Portugal como uma terra de catástrofes absurdas, atolada por superstições religiosas e autos-da-fé), Diderot, Buffon, Montesquieu, Rousseau, D'Allembert, Condorcet, Condillac, Mably, etc. A fina flor intelectual do Século das Luzes. Todos considerados ímpios, heréticos, perigosos, no ibérico paraíso das trevas. A esses se juntaram A Princesa de Clèves, de Mme. de la Fayette, e As Fábulas, de La Fontaine. O americano Thomas Paine, autor de Direitos do Cidadão, também entrou no rol dos defesos. Certas obras (o Traité de la Manie, do dr. Pinel, o Ensaio sobre o Homem, de Pope) às vezes podiam ser lidas mediante licença especial, exigência igualmente imposta às Viagens de Gulliver, de Swift; ao Werther, de Goethe; aos Ensaios, de Montaigne; e a um punhado de autores, ocasionalmente vetados na íntegra, como Edward Gibbon (o maior historiador do Império Romano), Adam Smith (e seu clássico A Riqueza das Nações), Jeremy Bentham, Thomas Hobbes, Locke, para citar apenas os mais visados.
Se já era difícil ter acesso a tais obras e autores em Portugal - onde, diga-se, não se imprimiam muitos livros e pouca gente sabia ler - imagine aqui. Aliás, o acesso a qualquer livro, na Colônia, em suas primeiras décadas de existência, só não devia ser mais trabalhoso que o combate aos tamoios e outros aguerridos aborígines.
Quase nada se sabe sobre a presença de livros em Pindorama, na primeira metade do século 16. Os colonos se ocupavam exclusivamente da formação de lavouras (especialmente de açúcar) e do corte de pau-brasil. Cultura, só extrativa. Mas livros por aqui havia, assim como bibliotecas, de instituições religiosas e particulares, formadas a duras penas e nem todas inteiramente submissas ao crivo da censura pré e pós-pombalina.
Em 1979, Rubens Borba de Moraes publicou uma modesta pesquisa sobre os livros e as bibliotecas institucionais e particulares do Brasil Colonial, editada pela Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, que merecia ser desenvolvida a uma dimensão a mais próxima possível da alcançada por A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. Isso, contudo, talvez seja impossível, dada a escassez de documentos sobre as preferências literárias e os hábitos de leitura em nossas capitanias.
A odisséia do livro e da leitura antes da chegada de D. João VI continua sendo um desafio, mais cheio de perguntas sem respostas satisfatórias (Quem lia e o que se lia no Novo Mundo português? Como os livros chegavam até aqui? Como se fugia à vigilância da censura?), informações desencontradas e inventários canhestros do que de dados capazes de nos oferecer um retrato menos desfocado de nossa formação cultural.
Estima-se que os primeiros tomos aqui desembarcados pertenciam aos magistrados (destaque para as Ordenações Manuelinas e outros receituários legais) e religiosos (a Bíblia e demais obras necessárias ao culto). Só a partir da segunda metade do século 16, depois que em Salvador se instala o Governador-Geral e chegam os primeiros jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega, para catequizar índios e educar colonos, é que os livros mais voltados para a instrução começam a se difundir, dando início à vida administrativa, política, econômica, espiritual, militar e social do Brasil.
A cultura brasileira brotou nos conventos, mosteiros e abadias de jesuítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos. E nesses redutos floresceu até o fim do século 18.
No final do século 16, os jesuítas já tinham uma biblioteca instalada em seu colégio em Salvador e outras no Rio, São Paulo e Espírito Santo.
A de Salvador chegou a abrigar 15 mil volumes. Padre Antônio Vieira, grande bibliotecário, considerava a do Colégio do Maranhão, onde cabiam até 5 mil volumes, "muito boa". Era nas ricas cidades do Nordeste que então se concentrava a vida intelectual do Brasil. Dos 13 brasileiros que foram estudar em Coimbra, no século 16, seis saíram de Salvador. A Bahia sempre enviava a Coimbra o maior contingente de estudantes: 175 (de um total de 353) no século 17 e 572 (de um total de 1.752) no século 18.
Os padres, e não apenas os jesuítas (expulsos do País por ordem de Pombal em 1759), adquiriam livros com o cacau e o cravo produzidos em suas lavouras e os remédios de suas afamadas boticas. Também aproveitavam o que funcionários do governo aqui deixavam e vendiam a preço de banana, para evitar o frete da volta a Lisboa. O que liam? Religião, história, geografia, estudos latinos, dicionários, gramáticas, filosofia, ciências, medicina. Sabe-se muito mais sobre as bibliotecas dos jesuítas que das outras ordens religiosas por causa dos trabalhos do padre Serafim Leite, historiador da Companhia de Jesus no Brasil.
As bibliotecas particulares se desenvolveram a partir das primeiras décadas do século 17. Mesmo no interior paulista, já menos preocupado com bandeiras e caça a esmeraldas. No fim do século 18, o ouvidor Lourenço de Almeida Prado mantinha em Itu uma apreciável biblioteca.
Minas Gerais, rica em ouro e diamantes, orgulhava-se de seu acesso a jornais ingleses e de mecenas como Manuel Nunes Viana, cuja atuação no campo editorial impressionou até os viajantes europeus que por lá passaram em meados do século 18. Foi ele quem levou Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, para ser impresso em Lisboa. Outro livresco, Manuel de Abreu Guimarães, de Sabará, tinha até ex-líbris.
Saint-Hilaire encantou-se com o nível de instrução e interesse literário dos letrados de Tijuco (Diamantina), onde se deparou com obras proibidas na Corte, como o Contrato Social, de Rousseau; o Espírito das Leis, de Montesquieu; e Telêmaco, de Fénelon - de enorme influência sobre as mentes locais. Surpreendentemente, nas bibliotecas dos Inconfidentes mineiros não havia livros explosivos, exclusividade do cônego Luiz Vieira da Silva, com quase 400 títulos dos grandes pensadores europeus dos séculos 17 e 18, vários da temida Ilustração, em suas estantes. Ilustrados por eles é que os Inconfidentes mineiros, os conjurados baianos de 1798 e os rebeldes pernambucanos de 1817 partiram para a luta pela independência.
Segundo consta, em 1793 só havia uma livraria no Rio. Vendia livros religiosos e de medicina. Seis anos mais tarde, surgiu uma segunda, igualmente limitada. É provável que outras mais existissem. Do contrário, os oficiais de livreiro não teriam reivindicado os mesmos privilégios, as mesmas isenções e a relativa liberdade de que desfrutavam os da Corte, seis meses antes do terremoto de Lisboa. Em vão, é claro. Para abrir suas asas sobre nós, a liberdade teria de esperar pela chegada da família real e pela abertura dos portos às idéias inimigas.

FONTE DAS ILUSTRAÇÕES ABAIXO:

Quem mais colaborou para o desenvolvimento do ex libris no Brasil, que teve o seu apogeu no Rio de Janeiro, no período de 1940 à 1958, foram Manuel Esteves, autor do único livro sobre o assunto no Brasil e Alberto Lima, que desenhou mais de 300 ex libris para os colecionadores.

Aproveitando a oportunidade, o "Pridie Kalendas", 

presta uma singela homenagem ao que foi considerado

  Um dos 20 melhores jornais do mundo

disponibilizando o seu tradicional e famoso EX-LIBRIS, :

Clique na figura para acessar o portal do jornal.

 

Ex Libris ao longo do tempo

     Na Idade Média européia, o uso do ex libris é uma tradição antiga e remota. O próprio nome indica que eles devem ter sido primitivamente redigidos em latim e foi assim que se propagaram nas bibliotecas dos mosteiros e chancelarias dos palácios reais; nas escolas monacais e palatinas, sob o abrigo das grandes casas da nobreza e já nas primeiras universidades; depois cada nação e estado os traduziu ou imitou na respectiva língua, conservando todavia a sua designação original.

     Muito cedo, já se adotava o processo de gravação em madeira para os ex libris. E sua história acha-se intimamente ligada com a da própria imprensa, datando de meados do século XV os exemplares mais antigos conhecidos desta espécie. O ex libris de Hans Igler, 1470-1480, por exemplo, ou o famoso ex libris alemão de Hieronimus Ebner gravado em madeira por Albert Dürer em 1516.

     Artistas afamados como Dürer, Altdorfer e Cranach contribuíram para a sua difusão e o ex libris tornou-se uma forma de arte em miniatura muito freqüente a partir do século XVI.

Na Itália, seguiram o exemplo Michelangelo, Cellini, Leonardo da Vinci e Rafael. Na França, Boucher, Gravelor e Moreau. O ex libris francês mais antigo que se conhece é o de Jean Bertaud de la Tour-Blanche com a data de 1529. Na Inglaterra, o mais antigo é o de Sir Nicholas Bacon que figurava nos livros que doou à Universidade de Cambridge em 1574. Segue depois a Holanda com o ex libris de Ana van der Aa (1597) e, mais tarde, Portugal, onde o gosto pelos ex libris artísticos se introduz no séc. XVII. Os mais antigos ex libris impressos, usados em Portugal, eram carimbos das livrarias conventuais do séc. XVI.

     O primeiro ex libris brasileiro, segundo o estudioso ex-librista Manuel Esteves, foi o de Manuel de Abreu Guimarães, rico possuidor de uma biblioteca na antiga cidade de Sabará (Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará do Rio das Velhas), Minas Gerais, no final do século XVIII. Presume-se que o mesmo tenha sido feito pelo padre José Joaquim Viégas de Menezes, pioneiro da arte de gravar em nosso país - responsável pela gravação e impressão de um livro antes da instalação da Impressão Régia no Brasil.

"É uma bela alegoria às Artes, ao Comércio e à Indústria. Uma lira no centro. Ao lado um caduceu - que é a insígnia de Mercúrio - o deus do comércio. Pode-se ver também o tridente - o cetro do Rei dos Mares, Netuno. Em bonito cursivo caligráfico traz o nome do possuidor: Manuel de Abreu Guimaraens." [Esteves, p. 129-30]

A Biblioteca Nacional guarda o único exemplar conhecido do mesmo, além de diversas coleções de ex libris brasileiros e estrangeiros.

     No fim do século XIX e primeiros anos do século XX, o culto ao ex libris ganha uma ênfase extraordinária. Surgem publicações especializadas e amadorísticas. Criam-se sociedades e clubes de ex-libristas - Londres (1890), Berlim (1891), Paris (1893), Viena, Washington, África do Sul, Lisboa, Rio de Janeiro - e organizam-se exposições públicas.

"Em 1927 era já tão avultado o número dos ex-libristas e coleccionadores portugueses que foi possível organizar na Imprensa Nacional de Lisboa (...) uma admirável exposição de Ex-libris (...). O gosto pelo ex-libris sofreu então enorme incremento e a tal ponto que correu sérios riscos de degenerar em doença furiosa de coleccionismo; esboçou-se uma verdadeira desorientação contra a qual se ergueram as vozes autorizadas de icono-bibliógrafos." [Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, v. 10. p. 735-36]

José Maria da Silva Paranhos - o Barão do Rio Branco, é reconhecido como primeiro grande colecionador e ex-librista brasileiro como se pode verificar pelo conteúdo do seu arquivo no palácio do Itamaraty.

"No livro de A. Poulet-Malassis, "Les Ex-Libris Français, depuis leur origine jusqu'à nos jours", segunda edição - 1875, o Barão intercalou folhas em branco e nelas colou quase uma centena de ex libris, na sua maioria alemães" (...) cuidadosamente anotados. Eis porque, nós que temos a paixão, que alguns chamam mania, de colecionar ex libris, nos sentimos um tanto orgulhosos e felizes; por sabermos que o maior Chanceller sul-americano - glória da Diplomacia brasileira - guardava do seu tempo precioso um momento para a "arte-miniatura", em que tanto se especializaram artistas notáveis como Agry na França e Alfred Cossmann na Áustria". [Esteves, p.134-35]

     O Barão de Rio Branco (1845 - 1912) tinha dois ex libris, um para os seus livros e outro que usava na mapoteca. O ex libris, desenhado pelo titular e gravado à agua forte por Agry, apresenta um brasão, mas há quem o qualifique de paisagístico e já foi assim descrito:

"Um trecho da Bahia de Guanabara, tendo em primeiro plano a pedra de Itapúca (Niterói) e ao fundo o Corcovado. O contorno é formado por palmas à direita e à esquerda que tocam as extremidades de duas azas abertas, na parte superior, onde se lê a divisa - Ubique Patriae Mémor. Em baixo, ao centro, está o brasão de armas, tendo ao seu campo uma esfera armilar; finalmente a letra "Da biblioteca de J. M. da Silva Paranhos, Barão do Rio Branco." [Ibidem, p. 134]

A. Poulet-Malassis é o autor do livro que revelou à Europa - por assim dizer - a importância, o significado e o uso do ex libris.

     Outros já haviam tratado do ex libris antes de Poulet-Malassis; escrevendo acerca do assunto sem a mesma importância. Mas foi Poulet-Malassis quem escreveu o primeiro tratado do ex-librismo!

"(...) em 1874, aparecia na França, editado por P. Rouquette, de Paris, o primeiro livro sôbre ex libris (...) No frontispício ainda se lia o seguinte: "Notes sur leur usage et leur curiosité". (...) Não trazia, porém, nome de autor. Entretanto, os 100 exemplares da edição em "Jesus vergè", estavam rubricados com as iniciais "A.P.M.", que escondiam o nome de A. Poulet-Malassis. O exemplar apresentava duas belas águas-fortes, uma do mais antigo ex libris francês e a outra do próprio Poulet-Malassis. E o livro, ao contrário do que o seu autor esperava, teve grande aceitação, tanto assim, que no ano seguinte, em 1875, aparecia a segunda edição, ainda do editor P. Rouquette, mas, desta vez, trazendo o nome do autor. À nova edição, revista e aumentada, acompanhava um álbum, contendo 24 pranchas com um ex libris em cada uma, dos quais seis eram originais, entre esses o de Victor Hugo." [Idem, p. 27]

A literatura francesa e a universal devem muito a Poulet-Malassis: foi ele o homem que editou, pela primeira vez (em 1857), as Flores do Mal de Baudelaire. Um exemplar desta edição é genuína raridade bibliográfica e constitui uma das preciosidades da bibliofilia.

 

Fonte do texto acima : (Vale a pena conferir)

OUTROS LINKS INTERESSANTES

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