|
O RIO ANTIGO SEGUNDO DEBRET
Marcação
pelo Pridie
Kalenda
|
MONOGRAFIA
EMINE NIKI ASLANER
HERANÇA FRANCESA
MISSÃO ARTÍSTICA FRANCESA
TURMA 503 SÁBADO
INTRODUÇÃO
Os vínculos dos franceses com
as terras brasilis começaram a se manifestar já em 1505 quando o
Capitão Binot Palmier de Gonneville ancorou na atual Santa Catarina
passou seis meses com os pacíficos índios carijós e retornou à
Europa levando um jovem de 15 anos, filho do Cacique.
Embora que fossem os portugueses, o
primeiro povo a desembarcar nas terras do Novo Mundo, o desinteresse
demonstrado por Portugal deixou o campo aberto para os franceses.
Comandados por Nicolau Durand de Villegaignon, os franceses chegaram
em 1555 na Baia de Guanabara e se fixaram na Ilha de Sergipe com a
intenção de conseguir um espaço onde os protestantes franceses
pudessem exercer livremente sua religião. Dez anos mais tarde, o
sonho de uma colônia França Antártica acabava com a fundação da
Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no Morro de Cara de Cão
pelo capitão Estácio de Sá, no atual bairro da Urca. Assim foi
decidido, em 1565 que na terra do pau-de-tinta se falaria português
e não francês.
Apesar de um início meio frio, algumas
figuras francesas destacaram-se desde muito cedo no país,
contribuindo para estreitar os laços. Foi o caso do engenheiro
geodésico e naturalista Charles Marie de la Contamine, que
empreendeu a medição do equador descendo o Amazonas e do naturalista
Auguste de Saint-Hilaire, que estudou a flora e a fauna brasileira.
Em 1889, data da proclamação da República, o filósofo August Comte
também deixou suas marcas quando o Brasil adotou na bandeira o lema
positivista “Ordem e Progresso” do filósofo francês.
VESTÍGIOS FRANCESES NO RIO DE
JANEIRO.
Os dois povos se renderam ao encanto
mútuo e o Brasil abriu as portas da cidade do Rio de Janeiro onde a
presença da França é maior do que em qualquer outra cidade
brasileira. S Missão Francesa de 1816 representou o início de novas
relações, que deixaram marcas na vida cultural, nas artes e
principalmente na arquitetura. Hoje, da velha praça do Comércio de
Granjean de Montigny, onde está a Casa França Brasil, ao prédio da
Academia Brasileira de Letras, uma réplica do Petit Trianon de
Versailles, passando pela reforma da Avenida Central baseada na
concepção urbana parisiense do Barão de Haussmann, a herança
francesa continua presente.
PROCESSO HISTÓRICO.
A guerra que Napoleão movia na Europa
contra a Inglaterra, no princípio do século XIX, acabou tendo
conseqüências para a Coroa portuguesa. Napoleão impôs um bloqueio ao
comércio entre Inglaterra e o continente. Portugal representava uma
brecha no bloqueio que era preciso fechar. Em novembro de 1807, as
tropas francesas cruzaram a fronteira de Portugal com a Espanha e
avançaram em direção a Lisboa.
P Príncipe-Regente, D. João VI,
decidiu-se pela transferência da Corte para sua colônia. Em poucos
dias, cerca de 15 mil pessoas embarcavam para o Brasil, sob proteção
da frota inglesa. Napoleão Bonaparte, sem suspeitar, fez com que a
história do Brasil tomasse um rumo inesperado.
O ambiente que antecedeu a vinda da
Missão Francesa.
As invasões napoleônicas trouxeram D.
João Vi e sua corte ao Rio de Janeiro, ensejando o processo de
independência da Colônia. A queda de Napoleão propiciou a retomada
dos laços culturais entre França e Portugal. A convite da Corte
portuguesa, feita através do
Conde da Barca,
veio ao Rio a Missão Artística Francesa, liderada por Joachim
Lebreton, secretário recém destituído do Institut de France.
Acompanham-no o pintor histórico Debret, o paisagista Auguste
Taunay, o arquiteto Grandjean de Montigny e o gravador de medalhas
Pradier com o objetivo de fundar a primeira Academia de Arte no
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Formados em sua maioria
no ambiente neoclássico, os artistas bonapartistas não se sentiram a
vontade com a volta dos Bourbon ao poder e aceitaram o convite de D.
João e embarcaram para o Brasil.
A VINDA DA MISSÃO ARTÍSTICA PARA O
BRASIL.
No dia 26 de março de 1816 no veleiro
norte americano Calpe, chegavam ao Rio com o objetivo de instalar o
ensino das artes e ofícios no Brasil. Os componentes da Missão
Artísticos, recebida oficialmente pelo
Conde da
Barca. Um casamento de interesses. O decreto de 12 de
agosto de 1816 criava a “Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios” e
fixava, ao mesmo tempo, os estipêndios anuais devidos aos
professores e funcionários da Missão. Os artistas foram contratados
por seis anos. Um projeto elaborado por Montigny para o edifício da
futura Academia de Belas Artes foi logo apresentado e tendo agradado
plenamente o Rei, sua construção começou. Começada a construção,
faleceu 21 de julho de 1817 o Conde da Barca, o grande protetor da
Missão. As obras paralisaram-se por anos.
A Missão Artística, desde o princípio,
contou com a generosidade de D. João, mas em compensação sofreu
animosidade dos portugueses.Os franceses traziam o neoclássico que
era o estilo que havia com o predomínio da reta sobre curva, do
equilíbrio, simetria e da simplicidade em contraste com as
características do barroco que trazia o drama, movimento, e o
exagero. Uma série de ciúmes e inconformismos a outras questões
sociais e políticas, fizeram com que as relações lusitanas não
funcionassem.
Durante dez anos o decreto que
determinava a criação da Academia Real de desenho, Pintura,
Escultura e Arquitetura Civil, sem a materialização de um prédio
para abrigar artistas da Missão onde se iniciaria o ensino de arte.
Hostilizados pelo meio artístico luso-brasileiro, espalham-se pelos
cantos do Rio: Debret alugou uma casa no centro da cidade, no
Catumbi; Lebreton no Flamengo e Montigny na Gávea, e Taunay no Alto
da Boa Vista, onde decidiu construir, no ano seguinte, sua
residência.
Foram dez anos de espera para que se
construísse o edifício e se inaugurasse a Academia. Nesses dez anos,
muitas coisas se modificaram. Lebreton faleceu em 1819 e para
atender diversos políticos, foi nomeado como diretor, para o seu
lugar, o Professor de Desenho, Henrique José da Silva “...um
medíocre pintor lusitano... que era de caráter mesquinho, de trato
difícil, invejoso, malevolente e inimigo dos franceses.
Assim descrito, o novo diretor,
gerando grande polêmica, fez retardar por dez anos a consolidação da
Academia Imperial de Belas-Artes, no Rio de janeiro. Gradjean de
Montigny, responsável pelo primeiro projeto da Escola, finalmente
daria inicio ao ensino regular de arquitetura no prédio que ele
próprio construíra. Mais tarde, em 1937, o edifício neoclássico
seria demolido, deixando o seu pórtico a ser admirado numa das
alamedas do Jardim Botânico.
OS MESTRES
Joachim Lebreton:
O chefe da expedição, a 9 de julho de 1819, morre
sem ter efetuado nenhum dos projetos que o trouxeram ao país.
Grandjean de Montigny:
Foi o responsável pela elaboração de vários
projetos oficiais e privados. Ele foi, sem dúvida nenhuma, um dos
arquitetos estrangeiros que mais tiveram impacto na reforma da
paisagem da cidade. Sua influência permaneceu por muitas décadas e
suas lições orientaram vários discípulos, como José Maria Jacinto
Rebelo, responsável pela fachada do Palácio do Itamaraty. A primeira
obra de Montigny no Rio de janeiro foi o pórtico da Academia
Imperial de Belas-Artes, na rua Jardim Botânico. No entanto o
projeto mais representativo do neoclassicismo à la française é o da
casa França-Brasil, um dos dois edifícios remanescentes de sua obra
no país. O segundo é o Solar da baronesa, localizado no Campus da
Puc, na Rua Marques de São Vicente. O edifício da Casa França-Brasil
foi projetado em 1821. Criado para abrigar a primeira Praça do
Comércio (espécie de bolsa de valores) da cidade, virou, em seguida,
prédio da Alfândega, Segundo Tribunal do Júri e, enfim, Casa França
Brasil.
Jean
Baptiste Debret –
Era considerado “A Alma”
da Missão Francesa. Foi desenhista, aquarelista, professor de
pintura da Academia de Belas Artes. Foi ele o responsável pela
organização da primeira exposição de arte no Brasil (1829). Ele
documentou, através de sua produção artística, a sociedade
brasileira do século XIX. Ele retratou a família real, e fez muitos
desenhos e aquarelas mostrando cenas do cotidiano da corte, além de
atividades dos escravos e dos índios. Ele registra uma sociedade
incomum, onde oficiais da corte, nobres, negros de todas as idades,
homens mulheres e até famílias inteiras desfilam uma brasilidade
nova.
Nas palavras do Mestre:...”A
devido ao habito da observação, natural em um pintor de história,
fui levado a extrair espontaneamente os tracos dos objetos que me
rodeavam; desta forma, meus desenhos feitos no Brasil especialmente
as cenas nacionais ou familiares do poivo entre o qual passe
dezesseis anos”. (sobre sua filiação artística).
“... minha intenção foi
compor uma verdadeira obra histórica brasileira, na qual se
desenvolva, progressivamente, uma civilização que já honra seu
povo,...”
(sobre a proposta de fazer
uma obra histórica, vl. 1.)
Por meio de sua obra A
Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil, Debret demonstra a
formação do Brasil como um país independente com sua cultura e dos
costumes dos homens. Ao longo de suas paginas, Debret,preocupava-se
com os textos que acompanhavam suas imagens, pouco comum em outros
artistas viajantes,
Nicolas Antoine Taunay:
Pintor, paisagista que se encantou com a
exuberância da natureza adquirindo terrenos na Cascatinha da Tijuca,
onde construiu sua moradia, Na Academia, Taunay buscava não se
envolver em polemicas e implicâncias. Ele ate chegou a plantar café
nas terras dele em tijuca, As paisagens que ele pinta envolvem a
própria natureza, ela se tornando o motivo principal de sua pintura.
Ele passa de um ideal clássico para uma observação mais realista e
ao mesmo tempo mais expressiva como se consta na sua tela Cascatinha
da Tijuca, em que as figuras são minimizadas e a natureza explode em
sua exuberância.
Em 1821 ele retorna a França, deixando
seu filho, Félix-Emile Taunay no seu lugar.
Auguste Marie Taunay:
Escultor habilidoso executou, a mais conhecida de
todas as suas obras, a famosa estátua de Napoleão com os braços
cruzados sobre o peito. No final da revolução retorna a Paris com
seu irmão Nicolas que tem também o papel de pai. Sendo os dois
Taunay bonapartistas fervorosos resolvem, com a queda do “Homem do
Século”, aceitar o convite da Missão para viajar ao Brasil. Pelo
decreto de 1816, teve a pensão de 800 mil reís anuais como escultor.
Em 1818, na ocasião da Aclamação solene de D. João VI, Taunay, em
colaboração com Grandjean e Debret ajudou na ornamentação da cidade.
Depois que Nicolas se retira na França, Auguste fica residindo na
Cascatinha com os sobrinhos. Ele abriu juntamente com Gradjean,
Debret e Felix cursos livres obtendo escultores entre seus alunos:
Jorge Duarte, Candido Mateus Farias, Antonio Pires e José da Silva
Santos. Ele também executou as esculturas da fachada da Academia de
Belas Artes com um medalhão datado de 1817 onde aparece D. João VI.
Ele faleceu em 1824 na casa da família em tijuca.
Félix-Emile Taunay:
Embora não fazendo parte da Missão, Félix é como
uma continuação desta expedição artística; Primeiramente por ser
filho de Nicolas e ter a mesma profissão que o pai, e depois, por
ter sido o segundo diretor da Academia: o futuro barão foi preceptor
de D. Pedro II; e seu filho Alfredo, visconde d´Escragnoglle Taunay,
escritor, senador e fundador da Academia Brasileira de Letras, herói
da Guerra do Paraguai. Faleceu, na cidade do Rio de janeiro, 10 de
abril de 1881, na rua Larga.
Marc Ferrez e Zepherin Ferrez
– Amigos inseparáveis, ficaram agregados
à Missão em 1817. Os dois escultores. Terminaram seus dias no Rio
de Janeiro; Marc, solteiro em 1850 e Zepherin, pensionário de
Gravura e sua mulher em 1851. Zepherin, tão bem entrosado com os
membros da Misão que fez de Grandjean padrinho de seu segundo filho.
OS RESULTADOS DA MISSÃO FRANCESA
Era o início da Academia
Imperial das Belas Artes, cuja criação em 1826, representou o
desenvolvimento da arte no Brasil. Com ela chegou, não apenas um
processo estético, mas também a institucionalização do ensino
artístico responsável pela formação de sucessivas gerações de
pintores, gravadores, escultores e arquitetos ao longo do tempo.
Foram abertas as aulas de desenho, pintura, arquitetura sob
orientação dos grandes mestres. O tempo passou, os mestres franceses
foram substituídos pelos seus discípulos.
Apesar das dificuldades, da sua
característica neoclássica, a Missão Francesa tem uma identidade
própria. Nascida da tenacidade destes estrangeiros. Ela permitiu a
participação de mulheres dando-lhes acesso a uma arte pública. Assim
conferindo um princípio de modernidade à arte brasileira e um sabor
próprio que não seria mais a mesma depois que esses bonapartistas
apaixonados viram fundar a Academia no Brasil. Desde o momento que
marcou o início do contato com a Corte Portuguesa em 1816, até o
momento da aclamação do príncipe regente D. Pedro II em 1831, todos
os principais fatos políticos figuram nas litografias dos artistas
historiadores.
A bibliografia sobre o tema da Missão
Artística Francesa tem deixado muitas dúvidas a respeito das
condições da vinda desses franceses para o Brasil. Limito-me a
escrever apenas no plano artístico, e da influência para o
desenvolvimento das artes no Brasil.
Verificando as plantas das Igrejas
mineiras e goianas do século XVIII, foram constatadas imprecisões
graves ao passar do papel para a execução. Talvez seja por essa
razão que se fala de “uma beleza indisciplinada” ao se referir ao
barroco colonial brasileiro. Como consta a escritora Gean Bittencout,
“...se não fosse a Missão. Não seriamos atualmente um dos maiores
arquitetos do mundo. Foi a Missão, que há 180 anos atrás, ajudou
preparar aquele amadurecimento que induz a novas observações.”
Alguém já disse que é demasiado cedo
para revelar os resultados da Missão. Lembramos que a arte grega
influência até hoje...
|
| Fonte:
http://www.marc-apoio.com.br/biblioteca/documentos/herana_francesa.doc |
|
O Francês
Jean Baptista Debret
foi comissionado por uma
instituição sabia da França, para escrever uma obra sobre o Brasil. Foi
nos primeiros dias do século IXX, quando ainda nos achávamos sob o jugo de
Portugal e dávamos abrigo seguro e tranqüilizador ao assustado e fugitivo
D. João VI. Debret saltou no Rio e pos mãos á obra. Meteu-se a viajar.
Começou a ouvir os naturais da terra. Estudou. Estudou até 1831. Nesse ano
remoto, atirou a sua obra á publicidade: três belos volumes, lindamente
cartonados, com vistas dos usos, costumes e gentes do Brasil. Essa obra
fez sucesso no momento de ser lançada á curiosidade de franceses e
brasileiros. Seu sucesso através dos muitos anos decorridos, ainda não
esmoreceu. Debret continua a ser um dos mais lidos autores que tem tratado
de coisas brasileiras no período colonial.
Por esse motivo, que é suficientemente forte e prestigioso, resolvemos
reproduzir, com a necessária explicação, algumas vistas que se encontram
nos três volumes do escritor francês.
Mas que era o Rio naquela época de Santa Aliança e de intranqüilidade
universal? Era pouco. Era uma cidade que apenas recebia os primeiros
influxos da civilização européia.
|
 |
|
VALE DA SERRA DO MAR |
Em 1806, o seu aspecto era pouco diferente do dos últimos anos do
século anterior. Até então, tinha tido como administradores o conde da
Cunha, o Conde de Azambuja, o Marquês de Lavradio, Luiz de Vasconcelos e
Souza, o conde de Rezende, D. Fernando José de Portugal, o Marquês de
Aguiar e o conde dos Arcos.
Em 1808, porém, chegava ao Rio de Janeiro, impelida pela fúria
napoleônica, a família real portuguesa, composta do príncipe regente, da
rainha D. Maria I de Portugal, do príncipe D. Pedro, do infante D. Miguel,
de diversas princesas, uma filha de D. João e outras irmãs de D. Maria.
A bordo das diversas naus inglesas e portuguesas vieram, como é sabido,
muitos fidalgos, empregados do Paço e muita gente do povo. A população do
Rio, aumentou, por isso, de cerca de trinta mil pessoas.
Os usos e costumes do Rio colonial modificaram-se com o acréscimo dessa
nova população. Festas regias, até então desconhecidas da população
carioca, entraram a ser realizadas, como a procissão de Corpus Christi,
que o rei acompanhava, os cortejos em grande gala, as paradas, as
cerimônias religiosas na Sé, transferidas da igreja do Rosário para o
templo pertencente outrora aos Carmelitas, situado na antiga praia de
Nossa Senhora do Ó, depois praça do Carmo, mais tarde praça D. Pedro e
hoje praça 15 de Novembro.
Foi por esse tempo que o príncipe regente ficou encantado com a
eloqüência dos pregadores brasileiros: S. Carlos, Lado de Cristo, Sampaio
e outros.
A fundação da Faculdade de Medicina, no Morro do Castelo, e a
instituição de outros estabelecimentos científicos deram nova vida ao Rio
de Janeiro.
Com o decreto de abertura dos portos muitos negociantes ingleses
afluíram ao Rio. De então em diante as ruas do Ouvidor, Quitanda e Direita
apresentavam enorme movimento. Segundo o que se lê no livro do padre Luiz
Gonçalves dos Santos, o movimento do porto aumentou notavelmente. O gosto
artístico desenvolveu-se de um modo súbito com a chegada da colônia
contratada pelo
conde da Barca.
|
 |
|
LITEIRA PARA
VIAJANTES NO INTERIOR |
O aspecto da cidade melhorou com as medidas postas em prática pelo
intendente geral da policia Paulo Fernandes Vianna. Nas generalidades das
casas, grades de ferro substituíram as famosas rotulas. A presença de
representantes de nações estrangeiras, junto ao governo de Portugal, deu
uma feição diferente, muito melhor, á residência do príncipe regente. Não
só eles como os fidalgos iam cumprimentar o príncipe em sua casa, para ter
a honra de beijar a mão da suprema autoridade.
Como é bem sabido, D. João preferiu sempre residir no Paço da Boa
Vista, em S. Cristóvão, em um prédio situado no meio da grande chácara
cedida por Elias Antonio Lopes. Essa casa, pouco a pouco ampliada, foi
nada menos que o Palácio da Boa Vista, hoje transformado em Museu Nacional
e com vastas ampliações.
***
Das
numerosas e interessantes gravuras que se encontram no livro precioso de
Debret, copiamos as que ilustram esse artigo. Assim, por exemplo, a do
antigo cais da praça do Palácio,ao lado, construído pelo vice-rei Luiz de
Vasconcelos, vendo se bem perto o antigo chafariz ainda de pé no mesmo
local em que o construiu o operoso e benemérito vice rei. O primitivo
chafariz, levantado em 1752 por Gomes Freire de Andrade, depois conde de
Bobadella, era no local em que se acha hoje a estatua do general Osório
O cais da praça do Palácio era muito freqüentado pelos negociantes das
redondezas, que saiam de suas lojas sem chapéu nem gravata, parra que os
caixeiros ignorassem o ponto em que iam tomar fresco e beber água da
Carioca, fornecida pelas pretas, nas conhecidas moringas de bico.
Perto do cais, vê-se um lampião de azeite de peixe, iluminação
introduzida na cidade no tempo do conde de Rezende.
***
No largo do Palácio, vê-se ainda um grupo numeroso e
interessante. Um preto ensaboa a cara de um patrício e com uma velha
navalha escanhoa. Nesse tempo os pretos, e sobretudo africanos, faziam
barba, aplicavam ventosas de chifre e, o que é mais, entravam por um
corredor qualquer, cerravam as portas e ai, sem pedir licença ao
dono da casa, exerciam os misteres da sua profissão. Os barbeiros pretos
que tinham casa aberta davam-se á musica, nas horas vagas, tocavam rabeca
e flauta.
Houve aqui até uma celebre musica de barbeiros que em
palanques apropriados, figurava nas festa do Divino Espírito Santo.
|
Fonte:
http://www.jangadabrasil.com.br/maio45/fe45050b.htm
|
A FESTA DO DIVINO
(Corte) |
Até o ano de 1855, nenhuma festa
popular no Rio de Janeiro foi mais atraente, mais alentada de
satisfação geral.
Referem antigos cronistas, que as festas do Divino foram
instituídas em Portugal pela Rainha Santa Isabel e escritores
do século XVI as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto na
sua Imagem da vida cristã.
Não abandonando nunca as suas terras natalícias, mas viajando
em nossos climas, esses folguedos impregnaram-se aqui de
aromas sutis, expandiram-se em manifestações mais variadas,
tendo como figurantes troncos primitivos ou seus descendentes
imediatos, que deviam entrar por algumas coisas na metamorfose
do molde metropolitano, sempre uniforme e monótono nos Açores,
Coimbra, etc.
E que não só a linguagem, porém os usos e costumes europeus,
passando-se para a América, adquiriram mais suavidade e
riqueza.
Na época em que fazemos passar esta festa (1853-1855),
em três freguesias desta capital armavam-se impérios e
coretos: - na do Espírito Santo, na de Mataporcos, na de
Santana, no campo do mesmo nome, e na Lapa do Desterro, que
representava a freguesia da Glória.
As músicas de barbeiros, que eram compostas de escravos
negros, recebendo convites para as folias, ensaiavam dobrados,
quadrilhas, fandangos...
O povo, prelibando delícias infalíveis, passeava no campo,
assistindo à edificação das barracas, à construção do império
e dos coretos, à colocação das bandeiras e das arandelas, e ao
orlamento de copinhos de cores, com que fantasticamente
iluminava-se a frente da igreja de Santana, mais tarde
demolida para fazer-se a Estação da Estrada de Ferro de Pedro
II.
Quarenta dias antes do domingo do Espírito Santo, a banda dos
pretinhos, precedendo ruidosa turma, parava no Largo da Lapa,
defronte de um império de pedra e cal, que existia no lugar
onde atualmente levanta-se um prédio de dois andares - e aí
tocava escolhidas peças de seu resumido repertório.
Ao passo que a música extasiava os circunstantes e reunia toda
a gente, dois negros possantes perfuravam o chão com alavancas
pesadas e pontudas. Findo esse trabalho, fincava-se o clássico
mastro, encimado por uma pomba de madeira recentemente
prateada, flutuando um pouco abaixo a bandeira do Divino, com
as suas douraduras brilhantes e seus matizes vivíssimos.
E a foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros
feriam os seus instrumentos, e os foliões, que até então
conservavam-se quietos, misturavam aos sons da instrumentação
marcial o rufo acelerado dos tambores, os tinidos dos
ferrinhos, o tropel das castanholas e o chocalhar dos
pandeiros, com que acompanhavam as suas cantigas:
A pombinha vai voando,
A lua a cobriu de um véu,
O Divino Espírito Santo
Pois assim desceu do céu.
Os foliões eram rapazes de nove a dezoito anos, trajavam
igualmente, cantavam quadrinhas ajustadas no religioso motivo,
pedindo pelas ruas da cidade esmolas para as despesas do
culto.
Dois irmãos da confraria os acompanhavam, vestidos de opa. Um
conduzia pela mão o imperador, que era um menino de oito a
doze anos, vestido de casaca vermelha, calção e chapéu armado;
outro, com uma espécie de custódia, no centro da qual havia
uma pomba esculpida, adiantava-se para as pessoas que a
beijavam, e, apresentando uma sacola de belbutina encarnada,
recolhia as esmolas dos devotos.
Nos ranchos, um rapazola ia com a bandeira, sendo as
vestimentas de todos casaca e calção escarlates com galões de
ouro, colete de seda branca debruado de cores, sapatos baixos
de fivela, chapéu de feltro de copa afunilada e abas largas,
ornado de fitas, distinguindo-se o porta-estandarte por
vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flores, pregado
no chapéu, de forma diferente.
E a folia dobrada, pulando, brincando, dançando, cantava:
O Divino pede esmolas
Mas não é por carecer,
Pede para esp’rimentar
Quem seu devoto quer ser.
Meu Divino Esp’rito Santo,
Divino celestial,
Vós na terra sois pombinha,
No céu pessoa real.
A folia de Mataporcos, reproduzindo cerimonial idêntico,
tomava para outras bandas, aguçando a curiosidade dos
habitantes do bairro, que chegavam à porta e às janelas para
vê-los e ouvi-los:
Andamos de porta em porta
De todos os moradores,
Pra festejar o Divino,
Cobri-lo de flores.
O Divino Esp’rito Santo
Hoje vos vem visitar,
Vem pedir-vos uma esmola
Pra seu império enfeitar.
Depois destes e de um sem número de versos, o irmão de opa,
erguendo a bolsa em que os devotos osculavam a imagem
simbólica, a retirava, ao tinir das moedas de prata ou de
cobre, que caíam, dos contribuintes piedosos e francos.
Diariamente saíam esses alegres e festivos grupos, visitando
cada qual a sua paróquia.
Os foliões de Santana eram mais avultados, descreviam mais
amplo itinerário, recolhiam maiores donativos.
Antecedidos sempre pela música de barbeiros, acompanhando com
instrumentos múltiplos as suas tradicionais canções, a
colheita das esmolas estabelecia relações diretas com as
maravilhas dos festejos.
E os foliões, contentes da lida, arrufavam, correndo com o
dedo, os leves pandeiros, batiam ferrinhos, rufavam
tambores, bailando em infantis descantes:
O Divino Esp’rito Santo
É pobre, não tem dinheiro,
Quer forrar o seu império
Com folhas de cajueíro.
Rua abaixo, rua acima,
Ruas de cantos a canto,
Rua que por ela passa
O Divino Esp’rito Santo.
Os impérios e coretos, fabricados de sarrafos e lona
pintada, estavam a concluir-se; nas barracas do campo, os
carpinteiros e pintores, trepados em escadas, pregavam tábuas,
estendiam dísticos, miravam os painéis que reproduziam
grosseiramente as representações do interior; e, por entre os
galhardetes, as bambinelas, troféus e bandeiras, avistavam-se,
em desenho flamante e incorreto, cenas acrobáticas, um bezerro
de cinco pernas, trabalhos de equilíbrio, exercícios
eqüestres, etc.
O campo de Santana sintetizava o grosso da função. Na direção
da rua de São Pedro, em frente ao quartel, alongava-se uma
linha de barracas com as suas cumeeiras, que semelhavam à
noite pirâmides de fogo ou tetos incendiados; e nos portais da
rua e aos balcões, os vendedores de sortes, de entradas e de
comidas, estendiam o braço, gesticulavam, gritavam como
possessos, ensurdecendo os transeuntes.
As músicas estrondavam de dentro, as famílias e o povo
formigavam defronte, e como uma chuva de pirilampos que se
abatesse dos ares, as lanterninhas de folha com vela de
vintém, das quitandeiras sentadas, faiscavam ao largo,
alumiando nos tabuleiros e bandejas os louros manauês,
as cocadinhas brancas e os bolinhos de aipim, feitos com
esmero e asseio pelas laboriosas e inestimáveis doceiras
daquele tempo.
Desde o escurecer, era realmente deslumbrante aquele cenário.
Naquela praça enorme, a fileira das barracas parecia um muro
alvo lavrado pelas chamas; a multidão com suas vestimentas
pitorescas, apinhada no chafariz que aí existia, ou movendo-se
em grupos, lembrava um quadro de mestre da escola veneziana;
ao ombro das montanhas descansava a abóbada do firmamento, e a
Igreja de Santana, com a sua torre caiada, destacava-se ao
fundo, num céu calmo e estrelado.
O famoso império, o coreto e o palanque do leilão, ao lado do
templo, cintilavam de luzes, agitavam os bambolins.
Os espetáculos nas barracas constituíam o divertimento
predileto de metade do público, que os freqüentava com
assiduidade.
A cavalgada de um dos circos de cavalinhos preludiava, ao
mesmo tempo que as folias, a Festa do Divino.
Todas as manhas, a partir das onze horas, a troupe
exibia-se nas ruas, com seus cavalos de raça, seus artistas
adestrados.
O pessoal completo da companhia, em garbosos ginetes
enfeitados de fitas, passeava pela cidade, anunciando o
espetáculo da noite.
Precedidos por dois clarins, o bando entrava ordinariamente
pela rua de São Pedro, caminhando a passo e avivando a
atenção.
Airosamente inclinadas em selins de banda, duas dançarinas de
corda, fantasiadas com luxo, refreiavam cavalos fogosos,
fustigando-os oportunamente.
A estas sucediam-se vários artistas vestidos como nos circos,
tendo por selins o acolchoado especial adotado para os
exercícios eqüestres.
Dentre eles gozavam de merecida celebridade o português
Jacinto, que pulava por dentro de arcos, e seu irmão,
vulgarmente conhecido por Bem-te-vi, ginasta assombroso
e incessantemente vitoriado nos saltos mortais por sobre sete
e nove cavalos.
Fechando o préstito, vinham dois macacos banzando de um lado
para outro em dois lindos pequiras, o diretor da companhia, e
o palhaço Joaquim, por antonomásia - o Faceirice.
Vestido de clown, de costas para o pescoço de uma égua
baia, de pé e fazendo trejeitos, o gracioso palhaço arrastava
após si uma ranchada de moleques, que, tumultuosos, batendo
palmas compassadas, estabeleciam com ele extravagante diálogo
e formavam coro.
E o Faceirice, dominando de toda a altura o seu numeroso
séquito, erguendo as mãos, arregalando os olhos, escancarando
a boca pintada de vermelho, ao soar dos guizos de suas mangas
de bicos e de seu chapéu de pierrot, principiava:
- Moleque!...
- Sinhô!
- A moça é bonita?
- É, sim sinhô...
- Tem vestido de babado?
- Tem, sim sinhô...
- Rapadura é coisa dura?
- É, sim Sinhô...
E assim por diante, terminando isto pelo invariável
estribilho:
- Ora, bate, moleque! ora, bate, coió!
Com o fim de manter a ordem, um ou mais pedestres, munidos de
grossas chibatas, guarneciam a onda, distribuindo às vezes
perdidas lambadas, que moderavam os excessos de entusiasmo dos
dilettantis em alarido.
Quando as luminárias acendiam-se, o campo regorgitava de
curiosos e de gente que comprava sortes, ceiava nas barracas,
caminhava ao acaso e recebia entradas.
Na sua tribuna aérea, o Chico-Gostoso apregoava ofertas,
improvisava versos patuscos, com a sua opa escarlate, com a
sua salva de prata:
Quem tiver o seu segredo
Não conte à mulher casada,
Que a mulher conta ao marido,
O marido à camarada...
- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, dou-lhe tudo desta
vez! - Eram as palavras que os ecos espalhavam pelo espaço,
com as gargalhadas da multidão, que aplaudia-lhe as lembranças
felizes e o logro dos - segredos.
As bandas de música faziam-se ouvir por toda a parte. Os
saltimbancos, aos gritos nos circos, provocavam "bravos" e
palmas dos espectadores em delírio.
Nas barracas de MM. Bertheaux e Maurin, a ginástica e os
quadros ao vivo, de reproduções históricas, tornavam-se
tentação irresistível para as pessoas que, depois de
apreciarem as magistrais execuções da banda de fuzileiros, que
tocava na varanda, iam deleitar-se a mais não poder, em
presença dos proclamados quadros impressionistas.
Não menos freqüentada era a barraca de M. Foureaux, com as
suas cenas mímicas, suas pirâmides humanas, seus volteios
eqüestres, onde os artistas Carlos Varin e Batista Foureaux
executavam exercícios de bolas, equilibravam-se em garrafas,
desempenhando igualmente, admiráveis evoluções em argolas
volantes.
Esta companhia contava em seu grêmio duas estrelas de
considerável grandeza - M.lles Jeni e Serafina.
Muitas coroas lhes foram atiradas aos pés, muitos amores
adejaram tímidos por sobre as suas formas cinzeladas, muito
poeta inspirou-se no seu olhar encantador.
É de boa fonte esta quadra, que lhes encarecia o mérito:
A Jeni, sempre aplaudida,
Fará passos graciosos;
Serafina, sobre a corda,
Seus saltos dificultosos.
Não obstante todos esses sucessos, a barraca das Três
Cidras do Amor levava de vencida a todas as outras, não só
pela originalidade das representações, mas ainda pela
variedade e distinção de seus freqüentadores.
E quem a freqüentava?
A plebe e a burguesia, o escravo e a família, o aristocrata e
o homem de letras.
Nos anais das nossas festas populares, a barraca do Teles,
ficará solitária no merecido renome.
A barraca das Três Cidras do Amor, ou barraca do Teles,
campeava em último lugar, quase fronteira do império.
O seu aspecto era modesto, o letreiro que a entesteirava era
ilustrado de três cidras monstruosas, pintadas a óleo nas duas
extremidades, e um triângulo de pequenas bandeiras, enfiadas
numa corda, formava-lhe o frontão simples e alígero.
No salão regular e pouco confortável, em longos bancos fixos e
toscas varandas, instalavam-se, nas noites de récita, centenas
de espectadores, ávidos de emoções agradáveis.
Por ocasião dessa festa compreende-se que todos procuravam
divertir-se, entrando os espetáculos do Teles no número de
suas procuradas distrações.
O cenário da barraca não era extenso; proporcionalmente
dividido, somente uma quarta parte destinava-se ao célebre
teatrinho de bonecos, restando as demais para as
representações de comédias, cantorias de duetos, mágicas e
ginástica.
Na companhia não havia damas: para desempenhar tais papéis,
dois ou três rapazolas imberbes vestiam-se de mulher, salvando
com habilidade a ilusão cênica.
O que é verdade, é que o galã Pimentel, o Mondar, o Vasques e
Pinheiro Júnior tiveram como seu primeiro mestre o empresário
das Três Cidras do Amor, e quando de lá saíram foi para entrar
no caminho da arte, das letras e da glória.
O Teles era um homem de estatura regular, acaboclado, cheio de
corpo e pernas inchadas. Gozando dos favores públicos,
simpatizado geralmente, engraçado a fazer rir as pedras, os
seus espetáculos arrastavam a maior concorrência.
Muitas noites, Magalhães, Gonçalves Dias, Porto Alegre, José
Antônio, o bacharel Gonçalves, Paula Brito, a Petalógica em
peso ia apreciá-lo, coroá-lo em cena, no debique mais
inofensivo e insuflador.
A João Caetano chamava ele de colega, consultava a respeito da
compreensão da arte, sobre os trajos dos personagens e
interpretação das partes.
Uma vez o impagável Teles, assistindo à representação da
Nova Castro, depois de felicitar o imortal ator que
desempenhara o papel de dom Pedro, disse-lhe no camarim, no
intervalo de um dos atos:
- O senhor agradou-me tanto, que deu-me vontade de imitá-lo.
Mas, como vestir-me para disfarçar o defeito das pernas?
- Colega, de botas e batina, respondeu-lhe João Caetano.
À noite, a feira do campo excedia-se em marés de povo no fluxo
e refluxo, em vozerias dos pregoeiros, em luzes, músicas e
divertimentos.
O estalo dos chicotes nos circos, o repique dos sinos de
Santana, ao terminar o Te-Deum, as pachouchadas do
Chico-Gostoso apregoando um pão-de-ló ou uma galinha, e a
multidão em tropel que acompanhava ao império o imperador do
Divino, o Porta-estoque e os foliões no centro de quatro varas
encarnadas, imprimiam a essa festa um cunho de relevo
brilhante, como as esculturas arquitetônicas da Idade Média.
O teatro do Teles era iluminado a velas e a azeite; pagava-se
500 réis de entrada, incluindo neste preço o bilhete da rifa;
tinha, além da orquestra para a grande divisão do cenário, uma
outra de violão, flauta e cavaquinho, que tocava oculta,
quando dançavam os bonecos.
Depois da ouverture - uma valsa ou uma polka -
subia o pano. Como introdução, à noite artística, o Teles
esquipaticamente vestido, aparecia, engolia espadas, comia
fogo, fazia mágicas...
E nem lhe faltavam aplausos e muitos agrados.
Descendo o pano e subindo de novo, representava-se O Judas
em sábado de Aleluia, por exemplo: havia ginástica,
cantava-se a ária do capitão Matamouros ou coisa semelhante,
como conclusão da primeira parte da récita.
O Teles, nas comédias do sublime Pena tinha seu valor, por
isso que era um homem totalmente inculto e gracioso, como os
protagonistas das comédias de costumes do Moliére cá da terra.
A maior soma de seus triunfos não consistia propriamente
nessas cenas de sobra originais do nosso teatro nacional,
porém no dueto O meirinho e a pobre, O miudinho e na
dança de bonecos, entremeada por ele de chulas lascivas, de
repentes petulantes, de saracoteios inimitáveis.
Quando o Teles transpunha o palco, encasacado de meirinho, e
começava, desenrolando uma corda, ao avistar a pobre:
Tanto pobre na cidade
Não ‘stá má vadiação...
o auditório enchia com uma gargalhada o recinto, a
rapaziada aclamava o artista, João Caetano batia palmas
vitoriando-o.
Isso deveras o animava, pois retribuindo com o seu esforço a
generosidade pública, despicava-se no fado do fim do ato,
bamboleando, cantando, requebrando-se, puxando a fieira,
ondulando as nádegas a extenuar-se, aos - Bravo do Teles! -
Corta jaca! - Mete tudo! - Bota abaixo! - da multidão
calorosa, que ria-se, gritava, batia com as mãos até os
derradeiros rumores desse dançado tradicional e eletrizante do
povo brasileiro.
Em um desses momentos, coroou por pândega o gênio de nossa
cena dramática ao saudoso histrião, de quem tão vivas
recordações ainda persistem na lembrança de tantos
contemporâneos que o conheceram e apreciaram.
Com a inconstância das bandeiras ao vento, as peças na barraca
variavam, e com elas todo o espetáculo. Era imutável, porém, a
representação dos bonecos, que constituía a segunda parte do
espetáculo.
Justamente nisso brilhava o nosso Teles por seu espírito e
mostrava real habilidade. O povo, que retirava-se nos
intervalos, precipitava-se na ocasião do sinal para o
espetáculo dos bonecos. Amainado o tumulto, o Manezinho
arpejava lá dentro no seu violão, o Zuzu feria com a palheta
as cordas do cavaquinho e o Ferreira tangia a sua flauta
sonorosa...
Levantava-se o pano, e ao som de plangente melodia, cantava o
Teles:
Abra-se o céu,
Rasguem-se as nuvens!
Apareça a cena
Cheia de luzes!...
É inútil descrever a impressão produzida entre os
espectadores, desde que se erguia a cortina, desde que
retalhavam o ar, a desaparecer nas bambolinas, os cordões
motores das saltitantes figuras.
Iniciava quase sempre essas récitas A roda de fiar,
diálogo entretido pela Fiandeira e o Caboclo, personagem
forçado a todas as representações.
O Caboclo, que era o fiel reprodutor das pachouchadas do
Teles, crescia do tablado, vestido de calça branca, camisa
arregaçada, colete encarnado, pulando-lhe à cinta uma
cabacinha, e munido de um facão, que agitava continuamente,
nas danças, nas ameaças, nas investidas, conforme as
situações.
Na Roda de Fiar ele entrava, irritando a pequena boneca
em seu trabalho.
A Fiandeira, cantando:
Não bula com a roda
Que ela é de fiar...
O Caboclo:
Não seja teimosa
Que há de apanhar.
- En... en! minha dona!... bradava ele, perseguindo
a interlocutora, que se punha de pé: ‘Stou todo arrispiado!!
E muito dito chistoso e muito verso de sentido equívoco
acudiam em turbilhão ao Caboclo e à Fiandeira, que acabavam
brigando e fazendo as pazes, aos requebros da chula, às
ovações da platéia.
Em seguida à Roda de fiar vinha A criação do mundo,
drama de enredo complicado e riquíssimo em disparates. Os
protagonistas denominavam-se: O Caboclo, o Padre Eterno, Adão,
Eva, Caim, Abel, o Sacristão e Sinhá Rosa.
Por esta distribuição pode-se calcular o ideal do autor.
Apanhando reminiscências, apenas arquivamos na memória um ou
outro lance, que nos ficou por causa dos versos.
As figuras bailavam desde o começo, o diálogo corria pouco
interrompido, o Caboclo entusiasmava com os seus repentes.
Com o imprescindível facão, traquinas e sempre disposto,
arreliava ele as suas donas, e, no paraíso,
recostado a uma árvore, implorava por Sinhá Rosa, quando ela
sumia-se nos bastidores:
Rosinha da saia curta,
Barra de salta-riacho,
Trepa aqui neste coqueiro,
Bota estes cocos abaixo!
Então, Eva queixava-se a Adão, revelando-lhe a tentação da
serpente, ao que este soltava:
Grande pinheiro, tão arto
Que dá pau para cuié!
Quem quisé vê mexerico
Vá na boca de muié.
A história intrincava-se; Caim matava Abel; havia
desaguisado; e o Padre Eterno, numa apoteose de nuvens de
pasta de algodão, descia do céu, intervinha beneficamente no
conflito, finalizando o drama por um cateretê, em que o Padre
Eterno dançava com Sinhá Rosa, aos peneirados do Caboclo, que,
dando umbigadas, sapateando, bradava:
- Quebra, Sinhá Rosa!... Rebola, minha Malmequeres!...
E palmas repetidas, bulha incessante, bravos e risadas,
partiam ardentes. Arriava-se o pano, sucedendo após minutos um
jongo de autômatos negros, vestidos de riscado e carapuça
encarnada, que, ao ferver de um batuque rasgado e licencioso,
cantavam o estribilho, que ainda é popular.
Dá de comé!
Dá de bebê!
Santa Casa é quem paga
A você!
- À cena o Teles! - Bravo do Teles! - À cena! - partiam da
platéia, ao que ele atendia, e, reverentemente comovido,
murmurava, adiantando-se e inclinando a cabeça:
- Obrigado, meu povo.., obrigado...
* * *
- Desta vez não fiz pechincha,
Descobriu-se a ladroeira!...
Assim exclamava o Chico-Gostoso da grade do seu tablado dos
leilões, sendo surpreendido numa escamotagem de prendas.
E uma trovoada de risos e uma pateada geral antepunham-se à
imperturbabilidade do capadócio leiloeiro.
- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Psiu! Psiu!!
O povo:
- Bravo! bravíssimo!
Chico-Gostoso:
- Toca a música!
O povo:
- Ainda não! ainda não!...
Chico-Gostoso:
- Tenho dois mil réis pelo porquinho... quem dá mais?
Um homem:
- Dou mais meia pataca...
Chico-Gostoso:
- Pois o coré é seu... Toca a música!!.
O povo:
- Bravo! bravo do Gostoso!
* * *
No império, o imperador, com o seu manto verde e sua coroa
dourada, dominava no meio de sua corte...
Nas noites de fogo, a afluência aumentava, as famílias
aguardavam, sentadas em esteiras, por essa radiante conclusão
dos festejos, e magníficas ceias, trazidas de casa, as
congregavam expansivas.
Depois da meia-noite queimava-se a primeira roda: formavam-se
partidos para saber-se quem venceria, se a fortaleza ou
as fragatas: as moças gostavam dos girassóis e
da lua, os meninos da mulher que mija fogo e do
barbeiro, e a rapaziada tinha como o melhor as vaias e
os "fora" ao fogueteiro, que andava em verdadeira roda-viva.
Ao arder a derradeira peça, quando lia-se no transparente em
cifras cambiantes - Glória ao Divino - a turba saía das
barracas, os sinos repicavam, o acampamento levantava-se, os
aplausos redobravam, e a multidão pouco a pouco dispersava-se.
Não faltavam comentários divertidos, ao toque das serenatas,
aos últimos episódios da função.
Eis o que era naquele tempo a festa popular do Divino, quando
a nossa sociedade não tinha a pretensão de querer impôr-se
pela decadência de seus costumes e pelo enervamento de seu
senso religioso.
(Morais Filho, Alexandre José de Melo.
Festas e tradições populares do Brasil, p.117-126) |
|

Há no referido livro outras gravuras igualmente curiosas como por
exemplo uns africanos semi-nus(ao lado).
Eram encarregados de transportar da Alfândega gêneros importados. Eram
eles os carregadores de caixas e caixões de madeiras e pipas de vinho.
Juntavam-se seis ou oito, formando uma companhia, e capitaneados por um
chefe, que levava um chocalho, procuravam cantando disfarçar as agruras do
calor e o peso da mercadorias.
A musica puramente africana, era característica e monótona.
|